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O mundo não vai bem, obrigado por perguntar. Aqui pela vizinhança ou lá longe, somos todos estrangeiros que carecem de cumplicidade. Sim, a palavra da vez é mesmo cumplicidade, que alguns entendem erroneamente como condescendência. Um engano corriqueiro, mas praticamente letal. Os cúmplices legítimos nem sempre concordam quanto à cor da gravata ou à política econômica. E essa discordância só faz aumentar a cumplicidade, que se estreita independente da dimensão do horizonte.

Se no princípio tudo era escuridão e vazio, parece que ainda estamos naquela etapa de pegar o castiçal para só então encontrar a vela e preencher o ambiente com um pouco de luz. E nesses tempos em que a conta da energia elétrica anda tão cara, a ideia de usar velas muito nos convém. Mas se uns poucos têm luz própria, estes exemplares da nossa espécie não podem servir de exceção. Ninguém é perfeito ou imperfeito o suficiente para sucumbir ao senso comum. A conformação acaba se mostrando como único caminho possível, mas isso acontece porque não se conheceu os demais. Antes da extinção deste planetinha azul que tanto nos apetece, temos a obrigação de experimentar estas vias iluminadas, nas quais as lombadas e os semáforos são desnecessários.

Na dúvida, não escolha um lado para se apoiar. Tomar partido é uma grande falácia de nossa era. Nestes poucos mais de dois milhões de anos, incluindo aqui nossos ancestrais habilis, erectus e neandertais, formaram-se aglomerações umas contra as outras porque a espécie só sabia evoluir na base da porrada. Mas a porrada é um caminho dolorosos demais, seja numa luta com ossos de animais ou num míssil disparado por um drone. A porrada não deixa espaço nem para a felicidade nem para os dentes. Ninguém precisa se deixar apanhar por uma visão de mundo tão medíocre.

E como a história teima em se repetir, a liberdade que pregam por aí está mais para a coerção pela concessão. Com a troca de favores, ganha-se poder, mesmo que a alma se perca pelo caminho. Os governos usam das concessões para se perpetuar, enquanto os cidadãos guardam dinheiro no colchão com medo do confisco. Eis a coação se fingindo de livre-arbítrio.

Daí que temos quatro ideias fundamentais: o amor, a justiça, a fé e a ciência. Por alguma triste sina, esse quarteto genial é utilizado para justificar os atos mais bárbaros de que já tivemos notícia. Enquanto houver extremos, não haverá lugar para a cumplicidade. O mundo não vai bem, mas obrigado por quem tenta mudar.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 11/06/2015.

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