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Penso num time de basquete como um quinteto de jazz: em ambos, lá estão o improviso, a técnica, o ritmo, e, por vezes, um elemento que se destaca mais que outros sem que isso seja um exercício de exibicionismo ou falta de respeito para com os demais. E se um nicho essencial do jazz nasceu e floresceu nos Estados Unidos, igualmente o basquete que beira a perfeição artesanal vem de lá.

A NBA, principal liga de basquete da América do Norte, é o palco de momentos tão aguerridos quanto sublimes, quando os limites entre esporte e arte sucumbem ao talento de seus jogadores. Claro que um esporte não se torna grande apenas pelo talento de alguns, mas sim pelo equilíbrio estrutural que a liga oferece. Há o investimento pesado em treinamento. Nenhuma banda vai do Swing ao Bebop sem o preparo anterior; nenhum time sagra-se campeão sem que a cesta seja um objetivo por vezes extenuante.

No último dia 16/06/2015, o time do Golden State Warriors levantou a taça de campeão da NBA nesta temporada. As finais foram disputadas em seis jogos, com quatro vitórias dos californianos Warriors contra duas do Cleveland Cavaliers. Acompanhar as partidas, mesmo que pelo retângulo televisivo, foi como estar num esfumaçado pub subterrâneo cheio de síncope e cadência. Enquanto o maestro-solista era LeBron James pelos Cavaliers, o não menos surpreendente Stephen Curry regia os Warriors num duelo de cavalheiros. Quando deixou a quadra, quase ao final do sexto jogo, James fez questão de abraçar Curry, porque o adversário num esporte não pode ser compreendido qual um inimigo.

Mas se os Warriors (guerreiros, em inglês) sabiam que a luta seria vencida pela força do grupo, a LeBron James coube o papel de general e soldado. Os Cavaliers jogaram como grandes, mesmo que seus jogadores oscilassem sobremaneira na qualidade das apresentações – inclusive Lebron, que é considerado por muitos o maior jogador de basquete da atualidade. Assim, o trabalho de equipe dos Warriors prevaleceu, com um time coerente, um jogador que saiu dos bancos para se tornar o mais importante dos jogos finais (Andre Iguodala), e uma atuação eficaz de todos os reservas, incluindo o brasileiro Leandrinho.

O Golden State Warriors fora campeão na NBA pela última vez em 1975. E talvez essa espera tenha enaltecido ainda mais a conquista que coroou a disciplina do time durante toda a temporada. Qual standard jazzístico (aquele tema clássico que todos conhecem), o time da Califórnia compôs sua própria melodia, fazendo arte e história com algo tão comum e esplêndido como é o esporte.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 18/06/2015.

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