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Quando ainda estudava no ginásio (ou seja lá como o chamam agora), tive a sorte de ser levado para a escola no carro da família – o que fazia uma enorme diferença no inverno. Meu pai me conduzia ao colégio que ficava a aproximadamente dois quilômetros da minha casa, em Florianópolis. O que aparenta ser uma distância grande fica minúscula quando ouço meu avô materno contar que minha mãe e seus irmãos andavam dez quilômetros para estudar lá na gelada Bom Retiro. Mas o que podemos desejar que não o melhor para cada geração seguinte? De tal modo, não tenho palavras para agradecer a educação que tive dentro de casa, o que me ensinou a dar valor para gestos tão modestos quanto esta carona familiar.

Como sempre frequentei o colégio de manhã, muitas vezes seguia rumo aos estudos com algum bocado de sono (que aumentava ainda mais no inverno), e cochilava no banco traseiro do carro. Em oportunidades ocasionais, meu pai conduzia o carro no itinerário automático da manhã; saía de casa, passava em frente à escola, e voltava para casa. E eu? Às vezes, ficava dormindo no banco traseiro que não despertava sequer a atenção do meu pai, e acordava já na metade do caminho de volta, sempre avisando: “ei, passamos da escola!”. Hoje, lembrando destes momentos, já não busco encontrar o responsável por aquelas desventuras, mas perceber como estas situações do cotidiano transformam nossa realidade e formam nosso caráter.

Numa destas muitas idas e vindas, uma ou duas vezes meu pai deu carona para alguém. Lembro especificamente de um dia de inverno, daqueles em que até os cães mais peludos buscam um cobertor ou a perna quente do dono. Fora do carro, um rapaz de uns vinte e poucos anos e um outro tanto de roupas quentes pedia carona. Meu pai parou; o rapaz entrou, e conversaram até chegarmos ao meu destino estudantil. Ficamos então sabendo que o jovem encasacado era do Nordeste, e nunca passara tanto frio assim na vida. Fico imaginando se ele chegou à capital catarinense no verão e encontrou nas praias e na agitação dos dias quentes as similaridades de sua terra natal. Então, o inverno chegou como um convidado indesejado e PUFT! Derrubou suas expectativas familiares. E, para ser sincero, creio que ele tem alguma razão. Num país tropical, fica difícil entender como o inverno pode ser tão surpreendente no litoral, com as praias vazias quando antes era difícil encontrar um cantinho na areia para abrir o guarda-sol.

As memórias de inverno são geladas demais para esquecer. E os cachorros, outra vez, estão encolhidos sobre o cobertor.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 25/06/2015.

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