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Nunca fui daqueles que se embrenham numa área e ali permanecem adubando o terreno, esperando os frutos, traçando parâmetros e metas. Falo aqui, claro, de temas do conhecimento, ainda mais porque cresci e morei todos os meus dias na cidade, longe de plantações e afins. Mas os saberes também precisam de cuidados, de irrigação, de paciência. E por querer tudo ao mesmo tempo, creio que a vida me interessa muito mais que os episódios. Não que seja necessário deixar de gostar de um para apreciar o outro, mas me parece que os contextos possuem um charme a mais.

Vide a crônica, por exemplo. Desconfiaria de mim mesmo se tivesse de escrever um texto crônico todos os dias, de domingo a domingo. Porque fiada nas miudezas, a crônica precisa se eternizar para além do minuto seguinte. A notícia, sim, foi feita para acabar rápido – mas não suas interpretações. Entrementes, o cronista de jornal diário tem a ciência de que está num contexto muito maior de informar e formar, mas tais preocupações devem ser compartilhadas por todos. Se a missão primeira não for outrem, de que vale perder tempo com palavras mirabolantes e frases de efeito? A crônica é eterna, mesmo que dure apenas o tempo de sua leitura.

Às vezes, tenho um pouco de receio de conversar com quem entende demais de um determinado assunto. Não, não é aquele medo bobo de parecer inferior ou um idiota completo. Minha inquietação é que, em muitas oportunidades, esses proclamados especialistas de um ou dois assuntos querem ganhar a todo custo uma batalha intelectual que já nasce descabida. Só faz sentido aprender e ensinar se toda conquista for um ato conjunto e não individual. Quem vence um debate com uma opinião unilateral está perdido demais para se dar conta disso.

Voltemos a nos concentrar nos contextos, olhando para dentro e para fora. Como nos intriga positivamente a história que cumpre um destino cheio de versões! Como não se encantar olhando as estrelas, as galáxias e tudo que não podemos tocar quando cá estamos neste planetinha tão carente? A perfeição atrai os loucos e os sãos pelos mesmos motivos. Claro, claro que há diversão em descobrir que dois átomos de hidrogênio ligados a um átomo de oxigênio formam a água. Mas olho para um oceano e eis que surge o alumbramento. É sede de conhecer.

Raramente, entro numa livraria ou numa loja de livros usados com algum título na cabeça. Sempre que me perguntam o motivo, digo que é porque quero que os exemplares me encontrem – e não o contrário! Primeiro, sou seduzido pela estrutura. Depois, pelas prateleiras. Por fim, o livro! Ah, o livro. Ali está o contexto pretendido desde o início: um terreno que dá frutos ao acaso.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 09/07/2015.

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