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Não é preciso que um casal concorde politicamente para ter um relacionamento pacífico, carinhoso e feliz. Veja o caso de Serafim e Virgínia, casados há duas décadas, mesmo que nunca tenham votado nos mesmos candidatos. Poderia ser coincidência, mas foi proposital: eles se conheceram ainda na escola, quando concorriam ao grêmio estudantil. Serafim perdeu a disputa, mas ganhou as atenções da vitoriosa Virgínia.

“Eu era um cara mais conservador, do tipo que altera os processos com cautela. Não acredito em revoluções porque fui criado por um pai policial que desistiu de ser padre para patrulhar as ruas. Minha mãe era devota de São Judas Tadeu, mas tinha uma quedinha pelo Che Guevara. Tudo bem, meu pai nunca reclamou porque a foto do argentino ficava sempre guardada na gaveta, enquanto a do Santo ocupava uma parte grande da parede da sala. Por tudo isso, aprendi a tolerar as diferenças, até mesmo dos mais descrentes. Quando Virgínia apareceu na minha vida, estava fazendo algumas curvas perigosas e decidi ir à esquerda. E ela era de parar o sinal!”, explicou-me um empolgado Serafim enquanto limpava sua coleção de rifles de caça.

Nas vezes em que os encontrei lado a lado, percebi que as discórdias de ambos nunca passaram dos limites do bom senso. E como opinavam distintamente! Entre um gole de chá (para ele) ou de cerveja (para ela), as proposições eram praticamente respostas que contradiziam tudo aquilo que o outro explicara.

“O Serafim é muito na dele. Para mim, nem tudo é o que parece. Tenho a necessidade de estar sempre descobrindo, de pensar diferente da mesmice que está absorvendo a inteligência de muitos companheiros de luta. As verdadeiras revoluções são movidas por sentimentos de amor, acho que foi o Che quem disse isso em algum lugar. E dou graças a Deus que temos alguns poucos exemplos do passado para mostrar o quanto já erramos. Assim, não posso pensar num amor de verdade que não seja contraditório. Se eu me casasse com alguém com a mesma visão política que a minha, morreria de tédio. O Serafim me contempla e me completa. E vice-versa como versa um grande amor”, a Virgínia comentou quando eu a presenteei com um quadro do Guevara – que fica exposto com toda a pompa no escritório da ONG em que ela trabalha.

O caso de Serafim e Virgínia é o auge da gentileza. Nunca elegeram o mesmo candidato porque não precisam que os outros lhes digam como se portar. É uma história de sabedoria que teria feito toda a diferença para as famílias de Romeu & Julieta, por exemplo. E como eles têm sorte por serem tão contrários justamente onde não é importante!

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 16/07/2015.

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