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Quando o mundo gira, tudo pode acontecer. Às vezes, não acontece. Pelo menos não do jeito que esperávamos. O convite vip não chega no horário e todos os compromissos são cancelados. Não há mais flertes, ameaças, protestos e manifestações de toda sorte. Um redemoinho de ideias e outras incoerências ocasionais surgem como um bálsamo à ferida exposta. Na garganta, a dor de um grito que não sai porque o tempo também o engoliu.

Em cada oportunidade, uma expectativa. As relevâncias dos casos noturnos colocadas em perspectiva. Vencidos ou dizimados, os que sobrevivem ainda estão esparsos nessas inconstâncias flagrantes. E quantos beijos esquecidos ficaram guardados no bolso do sobretudo empoeirado? Uma casa velha tomada por gatos e atos que não passam de vestígios – sombras do que um dia foram bailes e máscaras.

As recordações insistentes aparecem menos como drama e mais como sorrisos envergonhados, qual o primeiro toque entre as mãos distintas: um sinal de nobreza negativa e felicidade imediata. Os corpos se comunicam também pela fricção bruta ou pelo afago suave. O catre ainda à espera do que nunca se repetirá, nem mesmo como farsa. Já os punhos continuam cerrados; o soco recebido e aquela dor no estômago tão forte como a lembrança primeira.

Perdidos na sala, diários pessoais se transformaram em livros de história numa experiência revigorante. Ah, aquela saudade chega sem aviso prévio e serpenteia como uma noviça inquieta. Tantas datas registradas em nanquim apenas para se tornar um documento épico. Entre mentiras e descasos, um ou outro relacionamento chama a atenção. As palavras todas são ficções, mas os sentimentos as realizam. Para antes, o futuro. Para adiante, o talvez.

Naquele pequeno espaço coube o mundo do jeitinho em que está. Não importa se era um disco de vinil ou um quadro envernizado. A arte fizera das suas mais uma vez. As pessoas se conhecem o suficiente para acreditar no que bem querem. Foi assim com o amor, a liberdade e todo o resto. Na maioria das vezes, incertezas são passageiras de um trem que não chega a lugar algum. A próxima parada é sempre a mais esperada.

Hoje, ela continua exultante. Mesmo doente, a vida pulsa em seu corpo qual a melhor companheira de sua jornada. Não está buscando redenção, tampouco a coroação. É que viu um garoto lançando um pião como se desenhasse a sua própria efemeridade. E foi aí que ela sentiu algo novo, uma catarse em escala planetária: o mundo estava girando sem que ela ficasse tonta. E aconteceu, pela primeira e última vez.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 23/07/2015.

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