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Qual uma bagunça que alterna o humor, viver em sociedade parece ligeiramente coerente e conflitante. Da balbúrdia festiva aos confrontos armados sobra-nos uma ou outra ideia de justiça e, mesmo, da falta desta. Que posso fazer eu se penso diferente dos demais? Que podem fazer eles se pensam de maneira distinta entre si? E é quando somos obrigados a concordar na marra que a justiça surge como a única conciliadora possível.

Partindo desse viés conciliador, perguntamo-nos como ainda persistem tantas situações mal resolvidas. Nesse caso, seria um tanto quanto insignificante questionar apenas de quem é a culpa, já que os problemas continuam mesmo quando os nomes se alteram. Se não é mais tempo de inocentes, a harmonização dos interesses diversos tem de ser a busca essencial no cumprimento das leis. Em primeira e última análise, a justiça é o poder que mais nos interessa porque dele depende todos os outros. Que podemos esperar do executivo e do legislativo se estes não forem observados (e até mesmo punidos) por um judiciário isento e efetivo?

À justiça cabe uma responsabilidade tremenda, porque é a partir dela que a vida diária passa a fazer algum sentido. O cotidiano alienador impingido pela classe dominante tem na justiça um inimigo assaz cabal. Se há os que detêm as ferramentas para transformar os cidadãos numa mera massa de manobra ou em mão de obra burra, cabe à justiça vendar os olhos e tratar todos como iguais – respeitando as diferenças de mérito e arrasando com as diferenças especulativas. A jurisprudência só pode trazer em si mesma a baliza prudente de nosso tempo. Causa e efeito não podem mudar a dança conforme a música.

No extremo oposto, a injustiça não se dá apenas dentro das esferas legais. Injusto é até mesmo um sentimento que não vai além de si mesmo. Sigamos o exemplo do amor-próprio: gesto individual que só faz a sociedade engrandecer. Pequenas ou grandes, as injustiças vilipendiam a confiança entre as pessoas. Cumprir a lei deve ser mais do que seguir as orientações de um papel qualquer, mesmo que tenha um nome pomposo como “constituição”. Palavras, palavras, palavras. A justiça não fala; ouve e age. Porque é injusto aceitar as desigualdades como justas. Enquanto as diferenças de mérito são nobres e legítimas, as desigualdades são imorais e estúpidas. O coração se engana quando aceita o mundo em transe.

Sobrevivemos às epidemias, às guerras, às crises… e a justiça sempre esteve a um passo de se realizar. Ainda estamos a um passo da conciliação.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 06/08/2015.

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