Tags

, , , , ,


Estado: Olá.

Cidadão: Não me venha fazendo agrados não.

Estado: Mas que agrados, cidadão? Apenas fui cortês para com sua pessoa. Disse-lhe olá porque quero manter nossos laços firmes e azeitados.

Cidadão: Sei, sei… até parece que seus laços são fraternais. Você começa com um simples olá e, talvez num intervalo de um mês, já sabe de todos os meus dados, quer saber das minhas contas e ainda me faz passar papel de bobo entre os meus. Além disso, você vive às minhas custas.

Estado: Parece-me que seu coração está magoado e não há espaço para quaisquer coisas que não sejam radicalismos. Se eu não te conhecesse desde o dia em que nasceu, diria que você é um revolucionário ou, quiçá, um golpista.

Cidadão: Golpista? Eu? Como se você não me desse uma rasteira a cada dia. Prefiro ser visto como um revolucionário em vez de um reacionário. Sim, em verdade, você já está por estas bandas muito antes do meu nascimento e sempre manteve essa sua postura de lorde fora de época. Seus traços mais marcantes são o conservadorismo desnecessário e uma irrefreável vontade de que não se mexam nas instituições – mas não porque vocês as respeite, e sim porque elas o mantém em atividade.

Estado: Eu faço a minha parte. E olha que minhas responsabilidades não são poucas. Num mundo que sempre tende a divergir, eu tento manter minha integridade enquanto uma estrutura fundamental. E, para além dessa sua irritação matinal, lembre-se que foram seus antepassados que me deram origem. Na ancestralidade da existência, Estado e Cidadão são parentes consanguíneos.

Cidadão: Ora, não me venha falar de sangue que disto eu entendo; já derramei litros desse suor vermelho nas últimas décadas. Eu e meus companheiros deixamos inúmeros assoalhos vermelhos de tanto apanhar. E tudo isso para quê? Para que pudesses abrigar déspotas que se diziam esclarecidos. Uns imbecis de longa data que apostam cegamente na tradição sem conhecer causas ou consequências.

Estado: Não seja injusto para comigo! Eu tenho de manter minha neutralidade. É assim que sempre foi e sempre será. E, no mais, meu atual estado é de crise – não posso participar tanto quanto seria preciso.

Cidadão: Ainda bem… não pela crise, claro, mas por sua falta de participação. Hoje a festa é minha. Eu estava aqui quieto e você chega me dizendo “olá” como se fossemos amigos dos tempos de escola. Francamente!

Estado: Des-desculpe. Só queria sair um pouco do isolamento…

Cidadão: Parece até que você está passando pela crise da meia idade. Só falta agora comprar um carro esportivo… e ainda com o meu dinheiro!

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 20/08/2015.

Anúncios