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Parece-me muito apropriado pensar na escrita e na leitura como as mães das artes, das ciências e de todas as formas de vermos e nos expressarmos no mundo. Não que elas tenham surgido antes e nem que isso tenha alguma influência no entendimento da vida. O fato é que pensamos através das palavras e, assim que acordamos, lá estão elas ocupando o pequeno infinito espaço que lhes cabe.

Meditações que esvaziam as mentes à parte, damos com as palavras desde cedo para nunca mais deixá-las. Não por acaso, o princípio formal do conhecimento contemporâneo se dá pela alfabetização: Letras, palavras e frases que nos levam longe, mesmo sem sair do lugar. E há uma graça inequívoca em muitas letrinhas e suas formas geométricas. Linhas, traços, círculos, triângulos e outras configurações que se transformam naquilo que a gente quiser.

Com as palavras, movo o mundo e sequer preciso de uma alavanca ou ponto de apoio como necessitava Arquimedes. Com apenas sete letras, faço o castelo; com três, a lua. E com uma única letra afirmo a existência de todo o universo: É! Mas não fiquemos com atos isolados. Basta um divertido pensamento para juntar tudo e transformar o castelo no reinado de um jovem príncipe nas crateras da lua. E sempre que ele promulgar uma nova lei, dirá somente uma única expressão: – É!

É certo que as palavras são as melhores amigas da imaginação. Seja para elaborar a primeira lei de Newton ou para compor a nona sinfonia de Beethoven. Arte e ciência são parceiras indissociáveis desde que as palavras as uniram. Nunca confie num artista ou cientista ou em quaisquer tipos de especialistas que acreditam antes em si do que nos outros. Tudo o que é original vem de uma longa tradição do pensamento – que é, essencialmente, o pensamento alheio. As palavras que usamos não são nossas por origem. Mesmo os neologismos têm uma base anterior. Entretanto, podemos nos apropriar do texto escrito e falado, alterando sentidos e sensações, refazendo a natureza das suas interpretações que se locupletam a posteriori.

E não há melhor maneira para ser amigo das palavras do que por meio dos livros. Grandes ou pequenos, velhos ou novos, com dedicatória ou embalados: os livros são como baús imateriais. Cada exemplar é um guia do que fazer e do que não fazer. Quanto mais leitura, maior a compreensão das vilezas, das mesquinharias e das hipocrisias. Somos filhos da escrita, casados com leitura e pais de nossa fantástica aventura chamada vida. Anote aí.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 03/09/2015.

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