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Toda pessoa de bem deveria ter o direito a uma biblioteca pessoal. Não para se vangloriar pela quantidade ou pelos exemplares raros. Nada disso. A coleção particular deve apontar aquilo que o indivíduo é, bem como aquilo que ele gostaria de se transformar. Pessoas ruins, saliente-se, não sabem o que fazer com os livros. Elas invertem os sentidos, reduzem as interpretações e, por vezes, queimam as páginas apenas por não concordarem com suas ideias. E assim eles, livros e pessoas, jazem: sem conteúdo, destroçados, vazios…

A biblioteca nada mais é que um bocado de escolhas somado a outro tanto de presentes. Ali devem constar seus autores preferidos – mesmo aqueles que você nunca leu, mas mantém uma generosa expectativa. Não penso que exista um número mínimo de livros para afirmar com toda eloquência da qual somos feitos: – Eu tenho minha própria biblioteca. Para uns, tão somente um punhado será o suficiente. Para outros, talvez seja preciso uma parede inteirinha da casa ou do apartamento para que a expressão tenha sentido. Mas isso não importa de modo algum se os livros cumprirem seus papéis.

Se alguns ou muitos cidadãos ainda trazem consigo a visão de que uma biblioteca é um lugar chato, quieto e sem vida, creio que seja por falta de oportunidade. Oxalá alguém de bom coração lhes apresentem os livros como grandes companhias. Assim acontece comigo. Olho para as edições que acumulei ao longo dos anos e sei que deles virão conselhos honestos, histórias nobres e, claro, algumas traças – porque nada é perfeito.

Para além do conhecimento, a biblioteca de cada um é uma fonte de inspiração. Os livros são, também, a própria mensagem que carregam. O cheiro do papel, o tipo de encadernação, as cores do título e do texto, tudo faz da obra uma razão de ser e outra emoção para continuar. Ainda que estáticos, os livros ganham movimento a cada novo olhar. Vá para perto deles, folhei-os, tire o pó, organize a prateleira de um jeito que só você irá entender. Da sua biblioteca virá um digno sentimento de apego a bens materiais que lhe darão algo imaterial em troca: os sonhos.

Antes que alguém pense a respeito deste assunto, logo acrescento que não é preciso criar uma nova lei. Prazeres não se impõem, assim como ninguém é obrigado a gostar deste ou daquele livro. Ter uma biblioteca é semelhante a ter uma religião: você se reconecta a um poder incomensurável e assume para si o risco de criar. E é na criação que a felicidade aparece quase que por acaso, como um livro que cai aberto na página da sua vida.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 10/09/2015.

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