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A temperatura está tão indecisa quanto as pessoas. Há dias de choro nos quais é possível dar risada; há dias nublados em que se vê mais longe do que o próprio coração. As estações foram uma iniciativa grandiloquente em sua origem, principalmente porque se acreditava ter algum controle sobre o que torna a todos tão pequenos. Mas fingido é o clima em qualquer lugar, seja na seca Brasília (uma ilha-avião que nunca decola) ou na úmida Florianópolis (ilha-embarcação que navega sobre si mesma).

E se o clima pode variar, por que não as taxas de câmbio? O dólar nas alturas aquece e esfria mercados ainda mais severamente que uma frente fria oriunda de uma massa polar. Qual o aquecimento global que nos aproxima mais rapidamente de uma nova idade do gelo, essa economia de capitais especulativos nos encaminha às crises que se repetem tanto quanto aquele Vento Sul na ilha-embarcação. E mesmo o dólar dos turistas não é o suficiente para aplacar o sopro dos gigantes que estremecem lojas, empresas e fábricas de Naufragados à Ponta das Canas. Naveguem por aqui, verdes desenhos de George Washington, Ulysses S. Grant e Benjamin Franklin. Hoje, mais do que antes, dólares são mais do que reais.

Mas se o boom do turismo em dólar na capital catarinense ocorreu ali pelo final da década de 1990, o mesmo não pode ser dito da capital da nação. Lá, as verdinhas sempre falaram alto, seja como patrocínio indevido, incentivos fora de ordem ou, claro, corrupção na cara dura. A ilha-avião é, também, um porto-seguro para quem passeia por tempestades e afins. Para os que têm contatos, não há dia ruim, mesmo que a falta de umidade bata recordes históricos. Ali, como em qualquer parte, a opção do jeitinho sempre é uma segunda via quando a burocracia e as leis soam incômodas aos malandros de carteirinha. O motor de Brasília não funciona porque a gasolina foi desviada.

Pode ser ingenuidade acreditar que as leis ainda dão sinal de vida. Mas esta é uma sensação que permanece no ar apesar de tudo, como uma brisa quente anunciando mudanças no termômetro. Em princípio, não adianta esperar por uma chuva torrencial que lave a alma dos corruptos e incompetentes, mas também não é hora de abandonar o navio (ou o avião) e se deixar levar pelas águas internacionais. O que é o dólar se não um artifício fingido que também depende de tudo o mais para se manter de pé? Se o clima favorece a moeda estrangeira, vamos mudar o mundo de lugar. Olha o vento sul chegando…

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 01/10/2015.

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