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Um raio de sol passou por entre as grades da cela trazendo alguma luz para um local, quase sempre, tão sem vida. Aquele não fora um mês comum em Nova Iorque. Um calor fora do normal para Novembro, é bem verdade. Uma acentuada sensação de nostalgia era constantemente citada nos noticiários locais. O New York Times publicara um artigo de página e meia com possíveis explicações sobre o fenômeno que, estranhamente, atingia as pessoas. Mesmo ali, naquele lugar tão reduzido, no qual os homens e mulheres são colocados por desrespeitarem as leis humanas, o sentimento daqueles que passavam em frente misturava uma nítida impressão de déjà vu com um calor diferenciado, não aquele corporal que extravasa pelo suor. Era alguma coisa mais interna, subjetiva e que estava aquecida nalgum canto profundo da memória. Quando entrevistadas por emissoras de rádio e televisão, não raro as pessoas descreviam o que sentiam como uma espécie de renascimento, um retorno à ausência da maldade, aos dias de descoberta, aprendizado e admiração. E eram declarações sinceras, ditas por mendigos, músicos, médicos e toda a sorte de cidadãos daquela Grande Maçã. Mesmo os turistas de todo o mundo que lotam ainda mais as ruas da cidade estavam admirados com o que estava acontecendo. E era apenas ali, pois quando retornavam para seus países, o fenômeno terminava, restando tão somente uma espécie de memória de paz. Ainda na cela, um pássaro miúdo pousou entre as grades. A sombra da ave, ampliada no chão, trouxe ao prisioneiro a certeza da liberdade, já que estava ali só de passagem, como todos nós estamos dentro ou fora de muros. O passarinho estava contra a luz, tornando impossível ver suas características em detalhes ou identificar a espécie. Mas ele não precisava. Acreditar na existência do animal era, por si só, um ato de fé – e isto ele possuía aos montes. Estava preso e isso não lhe incomodava: era o mais inocente entre todos. Quer lhe provassem culpa ou não faria diferença tão somente para os dias efêmeros que se vão sem memória. Coçou a barba à espera de seu visitante diário dos últimos dias. O policial chegava sempre pela tarde e dizia que estava ali para ajudá-lo, sem perceber que seus encontros mudavam cada vez mais a própria vida daquele agente da lei. O prisioneiro conversava com um tom agradável, quase angelical. Quando falava de si, era quase uma viagem no tempo. Séculos de percepções, ensinamentos e aprendizado. Mesmo quando esteve ausente (“por aí”, como dizia), soube-se presente em cada pensamento feliz. Nenhum homem na Terra poderia julgá-lo. Não outra vez.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 08/10/2015.

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