Os personagens reais sempre se revelam porque não contam apenas as histórias de si mesmos. É o que acontece quando se vive, mesmo que navegar seja ainda mais preciso. Se a vida é cheia de som e fúria, como o bardo falou outrora, nada mais justo que as aventuras sejam indispensáveis à existência. E os bem aventurados são os que comungam suas narrativas.

Vejam vocês que as relações amorosas apresentam as condições máximas de uma jornada mítica e mista. No princípio de tudo, qual uma galáxia em plena formação, há um pouco de caos misturado com ansiedade e mistério. Ninguém espera que o amor cumpra regras – porque isso não acontece mesmo. Neste sentido místico, uma poção do amor é sua própria contradição. Não sobram espaços mágicos para um sentimento que é a única magia por excelência. Quem já leu uma poesia de Fernando Pessoa sabe a diferença entre falar de amor e falar amorosamente. Na primeira situação, é possível ter o coração solitário, sem almas afins ou coisas que as valham. Mas quem fala amorosamente sucumbe à magia extemporânea que acredita no “para sempre” e se deixa levar por muitos sentidos que não fazem sentido algum.

Contar sua história diz muito sobre como vemos o mundo. Imagino cá o quanto Ulisses (ou Odisseu, dependendo do time que você torce) revelou sobre os outros quando teve de contar suas desventuras até voltar a sua querida Ítaca. Assim, suas percepções sobre ciclopes, sereias e seus pares revelou que aquele mundo de antigamente já não cabia em si. Porque depois de uma guerra, como aquela ocorrida nas paragens de Troia, não há vitória plena. Aquiles estava morto: o homem se transforma em mito e nada mais parece igual.

Ainda que os conservadores não concordem, as odisseias do dia a dia são tão ou mais importantes que aquelas dos grandes homens e mulheres que legaram seus nomes aos eventos históricos ou míticos, reais ou fictícios, sinceros ou figurativos. Esse casal que, enfim, surge neste drama se qualifica em quaisquer destes aspectos. Luana e Solano sempre souberam que estavam incompletos e mal avaliados no mercado das disputas amorosas. Mas o que pode ser feito quando as ações estão em baixa? A resposta: uma boate chamada Ítaca e uma festa com fantasias. Nem é preciso dizer que Lua e Sol se reconheceram de imediato e partiram para um encontro em alto astral. Nem precisaram tirar as máscaras para entender o que estava acontecendo. Beijaram-se com fúria enquanto o som eletrônico cumpria sua função sensorial. Os personagens estavam revelados.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 15/10/2015.

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