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Nesses dias puídos de politicamente correto, arrivismo maquiavélico e outras abstrações socialmente temerárias, existe, sim, uma preocupação que permeia a esfera pública. E se a retórica tem que ser cada vez mais alterada para se fazer representar, então a luz de alerta está acesa como noutras oportunidades.

Meu receio principal é para com a tolerância aos intolerantes, principalmente quando colocamos a democracia em situação de risco. Tolerar a intolerância é o mesmo que dar de ombros no momento em que mais precisam da gente. E acreditem: precisamos cada vez mais uns dos outros para não dar voz aos recalcados. A intolerância mais visível é uma cria direta do recalque e da mediocridade. Eis o conformismo de quem vira para o outro lado e diz “tanto faz”. O posicionamento crítico, digno, respeitoso e, até mesmo, vigoroso tem que extravasar qual um duro golpe nas intenções de quem quer assistir ao circo pegando fogo. Os intolerantes, porém, esquecem que eles próprios são os palhaços.

Quando vejo estes desabafos repletos de rancor, ódio e frustração, admito que a democracia também dá oportunidade para que os idiotas sejam ouvidos e, muitas vezes, até mesmo seguidos com fervor. Mas a balança começa a desequilibrar para a estupidez justamente na ausência do lado que discorda calado. “Tanto fez como tanto fará”, dizem sem se comprometer com parte alguma. Justiça nem sempre significa igualdade. Respeitar o pensamento diferente também não é equivalente a aceitar o retrocesso obscurantista. A opção pelo juízo individual nunca trouxe qualidade alguma aos processos da vida civil. Chega a ser óbvio: não há vantagem no conflito – mas é fundamental o confronto de visões antes que se parta para a briga. E uma briga nem sempre é evitável, mesmo que o politicamente correto pregue esse discurso positivista.

Dizem por aí que não podemos refazer os começos, mas podemos e devemos interferir para que o fim seja mais do que esperávamos. Talvez alguns chamem isso de sonhos. E eles até mesmo podem estar corretos. Mas isto não tira a importância do que está em jogo e de quem joga. Os intolerantes só querem saber de si – como se tudo o mais fosse algum desvio de conduta. Daí a moralidade passa a ser bradada pelos imorais de carteirinha e de ofício. Corrupção que se alimenta como o Abaporu antropofágico, mas sem a nobreza pensante do quadro da Tarsila. Arte e sociedade corrompidas: o sinal maior da mediocridade.

Tolerar a intolerância é uma fraqueza que não tem mais espaço na construção da história.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 22/10/2015.

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