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De alguma forma pouco evidente, outra grande contribuição de Darwin ao nosso entendimento das coisas foi a seguinte: não adianta ir contra a natureza. Por mais que se esforce para dominar essa diva soberana que deixa qualquer estrela de Hollywood no chinelo, o resultado é efêmero. Suspiramos.

A chuva, por exemplo, faz por merecer a fama que tem. Quando escassa, todos sentem falta de qualquer pingo para encher açudes ou reservatórios. Quando em demasia, todos reclamam de sua inconveniente obstinação ao encobrir o sol e adiar os programas ao ar livre. E nem mesmo adianta ver a chuva poeticamente, como as lágrimas de deus ou aquele excesso que vaza da banheira dos anjos desastrados. Chove esta noite, e convém apenas a conformação.

De um tempo para cá, foi muito propício colocar a culpa dos desastres naturais e mudanças climáticas no acontecimento global. E isso tem sua razão. Mas não nos enganemos quanto ao poder original da natureza. Olhemos, particularmente, para o passado da Terra. Não foi preciso nenhum ser humano poluindo os rios ou esburacando a camada de ozônio para que aqueles simpáticos gigantes monstruosos chamados dinossauros viessem a sucumbir ante o peso do ambiente. Mesmo aquele asteroide que lhes custou o início dessa derrocada foi tão natural porque previsível e surpreendente: afinal, essa vida que aí está também é poeira de estrelas.

Por outro lado, a gente racionaliza demais, mesmo em situações tão triviais quanto a chuva. Percebemo-la qual um agente transitório, porque vai e vem quando lhe dá na telha. Mas a transitoriedade é só o que existe na natureza. A reciclagem é um princípio do universo quase tão fundamental que explicaria até o Big Bang se tivéssemos uma testemunha ocular daquele acontecimento. Chove esta noite, e os poetas podem compor canções molhadas, enquanto as galáxias se reciclam. Respirem fundo.

Mas a pergunta principal ainda permanece sem resposta: O que fazer nestes dias chuvosos? Deitar-se no quarto com as cortinas fechadas enquanto os pingos marcam seu próprio ritmo na janela não é a solução universal. Bang. Para os que querem crer nestas palavras crônicas, não deixo respostas porque prefiro os questionamentos. De que adianta saber o que fazer se você não estiver inspirado em como fazer?

Chove esta noite, e ganhamos outra chance de nos colocarmos em nossos devidos lugares. Não estamos acima ou abaixo da natureza, ainda que as chuvas nos cubram e o sol nos queime. Somos outro pingo do enredo darwinista. E chovemos juntos.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 05/11/2015.

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