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Um único sorriso desencadeia toda uma vida de memórias afetivas. Que jeito incerto de encontrar a felicidade para além das lições individuais! A criança, o sobrinho empunhando uma espada de plástico, a lhe dizer que certezas são desnecessárias nesses tempos de dúvidas. A namorada a lhe garantir a eternidade do instante: Antes, durante e depois reunidos no mesmo significado. E todos aqueles símbolos que contradizem a existência das verdades se evaporam na mesma fumaça de um não-amor.

Dos parentes, ganhou conselhos carinhosos e, talvez, um ou dois brindes com as taças de vinho quase cheias. Que safra maravilhosa a daquele ano – não importa qual. Sugestões e uvas são bem vindas, mesmo as de sabor agridoce. Os meios dos outros são as próprias mensagens que recebeu. Santos e selvagens abençoados pelo desconhecido sempre presente.

Não se trata de um local específico ou de um caminho unilateral. Esses sentimentos ultrapassam métodos consagrados. O modelo pré-fabricado deixou de ser o padrão tão logo aquela primeira maçã foi mordida. A saudade do paraíso é ainda mais divertida. E assim continua a se perguntar se valeu a pena tanto esforço. Valeu.

É um combate dos bons, de quem terminou a corrida e nem está aí para sua colocação final. Essas vaidadezinhas só servem de enfeite. Há muito mais alegria numa luta justa do que na desigualdade que é varrida para baixo do tapete. Seus amigos lhe fazem companhia em duelos ou drinques. Apertos de mão, tapinhas nas costas, frases de efeito, palavrinhas e palavrões seguem o ritmo de uma música celestial. Enquanto uns contam histórias, outros contam estrelas. Vantagens mútuas e compartilhadas. A amizade como argamassa do amor.

Ainda restaram duas ou três ideias por realizar. Lembram daquela ninfa chamada esperança que foi ter com os deuses? Pois é. Ela ainda não foi atendida. A tradição culmina nas boas novas. O improviso se junta ao conhecimento e as expectativas se elevam. Sucesso ou fracasso são apenas palavras que não se encaixam naquele jeitinho incerto de ser feliz. Quem sorriu e quem viu o sorriso sabia disso muito bem.

Hoje, por sinal, é um destes dias. As recordações são fiéis devotas dos anjos descompromissados. A manhã começou revelando identidades secretas. Heróis já não tinham mais álibis para justificar os desequilíbrios sociais. Os mitos, por sua vez, afundaram junto com o mau humor. Na estocada da espada de plástico, a paz apareceu soberana. O conhecimento lhe deu conforto. E, fingindo sofrer com o golpe de brincadeira, sorriu também.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 12/11/2015.

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