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Numa sociedade do imediatismo como a contemporânea, o calor dos acontecimentos interfere diretamente na qualidade que mais nos dignifica como espécie: a racionalidade. Tragédias humanas como estas do rompimento das barragens em Minas Gerais ou dos atentados terroristas em Paris exaltam os ânimos até do menos engajado dos cidadãos.

Diante de um cenário de horror e drama, o sujeito que nunca militou por nada de seu cotidiano e jamais saiu às ruas para reivindicar coisa alguma se sente à vontade para destilar uma fúria que tem muito mais a ver com amargura pessoal do que com ofensa social. E, de uma situação donde se devem absorver lições e apontar objetivos comuns, ficam apenas os registros de rancor, preconceito e, claro, falta de clareza nos pensamentos.

O desastre ambiental na cidade mineira de Mariana deveria nos ajudar a cobrar um país unido política e socialmente. Uns ameaçam empresários ou empresas responsáveis, como se a justiça (?) do “olho por olho” alguma vez tivesse proporcionado a felicidade para alguém. Lembrem-se que na vingança duas covas sempre são abertas – algumas até sob a lama. Outros apontam o dedo para o poder público, como se não houvesse autoridade e/ou serventia para o Estado. Logo, surge uma ideia descabida de aplicar a anarquia pontual: infligir a lei para que a lei seja feita. Um desejo falsamente utópico porque forjado no ódio.

Nas ruas de Paris, o terror sensacionalista é uma intimidação ao modo de vida civilizado, que incluiu, entre outras coisas, o respeito pelo livre pensar e o direito para ser diferente. E, para essa civilização que acredito/acreditamos, um princípio fundamental é aceitar a presença da fé como força de coalização. Não estou falando de seguir esta ou aquela divindade, mas sim de entender que mesmo as religiões possuem um sentido racional. Quem não tolera a cultura alheia é apenas um ignorante, não um religioso. A religião tem como cerne a crença no outro, assim como o pensamento científico mais urgente: eis o equilíbrio desejado. Um simples olhar para a arte e a história basta para entender que os grandes homens e mulheres transformaram a fé nos sonhos que compartilhamos. E estas pessoas eram grandes não porque fossem iluminadas por uma força superior, mas sim porque eles próprios iluminavam outrem. Os fundamentalistas são o exato oposto da clareza – e não convém entrar nessa nem que seja para odiá-los.

Tomar uma decisão boa ou ruim não parte da religião ou do estado ou da paixão ou do que quer que nos rodeie. É a razão e a falta desta que muda o mundo, para o bem e para o mal. Quem tomou uma boa decisão de cabeça quente que atire a primeira pedra.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 19/11/2015.

(Texto ampliado para a publicação no blog).

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