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Você e eu estamos ligados desde antes da existência. Não é só pela química de nossos elementos e tampouco pelo líquido vermelho que corre em direção ao nosso peito. Somos a mesma variação de uma espécie em permanente expansão. Uns são mais loucos; outros menos engraçados. Nenhum de nós precisa ser triste porque é, em si mesmo, uma conquista histórica da evolução. Incompletos por vocação.

Não estamos sozinhos nessa parte que nos cabe deste latifúndio. Encontramo-nos em erros, acertos e outras adivinhações quase tão infantis quanto o princípio de tudo. Um único voto que compartilhamos ainda está sem apuração, pois o consenso é um objetivo distante e tortuoso.

Eu e você não gostamos de traidores porque queremos confiar, ainda que as explicações gerem mais dúvidas do que consensos. Congregamos essa esperança alheia que nos mantêm tão próximos quanto a física permite. Indivíduos que somos, não vivemos sem os outros. Precisamos aprimorar nossa comunicação independente do telefone estar quebrado.

Nalgum momento de fraqueza, talvez um de nós acredite ser ligeiramente distinto, com uma vocação especial para alegar verdades únicas. Mas quando respiramos fundo, no cantinho da sala, sossegados, a luz acende. Para alguns, é uma revelação. Já para outros, dura apenas milésimos de segundo. Você sabe tanto quanto eu que só buscamos uma interpretação que nos permita superar a noção trivial do universo e de tudo o mais. Essas algumas incertezas acariciam nosso coração que bate em uníssono.

Você e eu nunca seremos bastante, ainda mais quando padecemos das mesmas doenças e virtudes. Tossimos e sorrimos praticamente da mesma maneira. Há um certo estilo que subexiste em nossas memórias afetivas. Você me entende nas horas mais estranhas. Somos estranhos, mas eu retribuo tuas gentilezas igualmente.

Em determinadas situações, querem nos colocar num conflito sem razões. E cem razões encontramos já na largada para deixar estar e partir para o abraço. Os sentimentos partidos não combinam com esse respeito inequívoco que cultivamos ao longo de milhares de anos. Tua eternidade me pertence como a minha a ti. Esses golpes do destino só ilustram causas perdidas e sem qualquer validade.

Eu e você estaremos juntos, apesar do mundo. Enquanto estivermos indisponíveis, descobriremos uma brecha nessas regras ultrapassadas. Eis a constância da tradição e da inovação num único aperto de mãos. Para os dias bons e os não tão bons assim, fizemos um voto que há de ser cumprido. Somos a carne presente e o sonho futuro. Não nos escapamos de um encontro derradeiro cheio de som e fúria.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 10/12/2015.

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