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Heróis por um dia todos podemos ser. Não pelo sacrifício, mas em razão de um legado que se faz presente por que fora do tempo. Bowie sabia disso quando cantou o amor moderno ou a rebeldia glam.

– Vamos dançar!, dizia naquela voz protuberante.

E as pessoas agitavam seus corpos como que entorpecidas de algum sentimento que pode ser deste ou de outro planeta. Se a gente é feita de poeira estelar, nada mais adequado que essa experiência musicada chamada vida seja oriunda do pó – para onde, também e não por acaso, retornaremos.

De longe, aquele sujeito das estrelas observa com interesse os sapatos vermelhos equilibrando mulheres e homens sem ter por onde. Este é heroísmo de quem faz os dias menos tumultuados como é característico dessa humanidade carente.

Não muito longe, e sob a mesma pressão, Mercury desenha uma rapsódia quase tão singular quanto o reinado pacífico e duradouro. De novo, o herói é carregado nos braços do povo, enrolado à bandeira da Inglaterra ou do Brasil ou da galáxia mais próxima. Nada realmente importa, nem bandeira alguma se torna fronteira para quem busca alguém para amar.

– Nós somos os campeões!, bradava sem camisa ao piano.

Vivendo sozinho, queria se libertar de qualquer doença ou cisma. Desejava viver para sempre – e quem não queria isso também? –, mas aceitou o tempo que lhe cabia. O show tinha que continuar, independente do preconceito alheio.

Bowie e Mercury vieram a ter muitos anos mais tarde. Já não existiam muros separando Berlim ou Jerusalém. A política havia sido banida pela arte como um movimento natural: o vaivém das ondas do mar ou do rádio. Nesta conversa épica, revelaram alguns segredos existenciais e se divertiram inventando novas personalidades. Dividiram um tipo de mágica que trouxeram daquela estranha odisseia espacial.

Os cálculos foram executados com perfeição e o controle da missão autorizou a decolagem da nave. Daquele dia em diante, todos os momentos foram extintos e transformados em música permanente. Ainda haveria lugar para os heróis, mas que viessem da ficção como tudo o mais.

Outro dia, deixei o rádio ligado na estação de sempre. Em uníssono, as vozes de David Bowie e Freddie Mercury me buscaram de um distante raciocínio pormenorizado sobre contas a pagar ou algo do gênero. A realidade te tira do sério e não sorri de volta. Aumentei o volume porque não havia mais nada a ser feito. Desta vez, eu era o herói da História – pelo menos enquanto a música estava tocando.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 14/01/2016.

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