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O tempo conta uma história sobre eles, ainda que não a compreendam durante sua própria narrativa. Um recorte instantâneo do mundo na foto da família colocada numa imensa moldura na parede da sala de estar.

Quem eram aquelas pessoas e o que faziam naquele determinado momento? As lembranças já não são precisas assim porque há uma urgência que escapa aos dias, como a felicidade inconstante jamais encontrada em atos de vingança. Mas não, não era nada tão drástico assim. Apenas uma nuance cheia de intenções captadas pela lente de um fotógrafo do qual ninguém mais recorda o nome – afinal, ele não era da família.

Na imagem rural, todos se arrumaram para o evento em frente à velha casa de madeira na qual nascera o patriarca. A modesta habitação já não combinava mais com as muitas riquezas acumuladas pelos filhos e netos. Entretanto, por algum motivo nostálgico, preservaram o local como um símbolo do progresso. Para alguns, apenas um ventinho de vaidade refrescando-lhes os rostos: olhavam o passado, mas gostavam mesmo do presente. Para outros, tudo não passava de uma união estranha. Entre primos e tios que pouco se viam, também existiam aqueles que nunca se deram bem. Rusgas e feridas de outrora que ainda não cicatrizaram por completo. Perdoar é mais difícil para os orgulhosos. Mesmo assim, todos sorriram no momento em que o flash foi disparado. Já era. A fotografia seria por si só um contexto fechado. As interpretações posteriores também viriam daquela imagem tão rápida qual um suspiro.

Olhando para o quadro, suspirou. Não visitava os avós há muito tempo porque escolhera sair daquele círculo familiar. Mudou de estado civil (casou), mudou de estado da federação (foi para o Norte) e encontrou na distância daqueles que um dia lhe foram tão próximos um entendimento libertador de quem não deve nada a ninguém. Claro que existiram mágoas, mas estas foram esquecidas tão logo se mudou. Voltou para uma despedida. Um adeus para a avó que já perdia as forças que o mundo cobra. E logo que entrou na casa dos avós, o quadro lhe surpreendeu. Era ainda um garoto quando olhou para a aquele anônimo fotógrafo que pedia que todos lhe dissessem “x”. Quanta bobagem, pensou de imediato ao ver o cabelo curto, molhado e penteado, que usava à época – justamente o oposto de agora. O avô reparou que ele olhava fixo e tirou sua atenção com um abraço. Foi só então quando aquele mundo acabou que ele aprendeu a começar de novo. Despediu-se da avó com um registro apenas na memória – o flash ficaria para quando se reencontrassem.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 21/01/2016.

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