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Querem que a lama seque e vire areia do mar. Anseiam para que a poluição não contamine o coração afoito de turistas e passageiros de primeira viagem. Mas tudo bem, damos um desconto porque por aqui sempre passaram administrações surreais. Quase idílicas, dependendo do seu grau de comprometimento com o mundo dos sonhos.

Nada disso me comove de fato. Nem mesmo uma nevezinha em pleno verão acabaria com todos esses mosquitos e desafetos políticos. Por mais diferentes que sejam, inverno e verão trazem as mesmas dúvidas primeiras porque se estabelecem numa única realidade paralela. Ou perpendicular. O drama se dá em tom de comédia pastelão. Torta na cara e esgoto no mar. São situações tão previsíveis quanto a queda de um asteroide ou uma nova Idade do Gelo. Já não fazem rir, pois os burros não levam mais os bondes ou as culpas.

Sei que você não quer nada com superfaturamento, corrupção ou labaredas alcoólicas. E faz muito bem. Noutros tempos, quando a guerra era fria e o céu era o limite, apenas pretensões como estas já davam cadeia. Hoje, o trivial virou factual que virou viral e foi parar no youtube ou no facebook. Tanta exposição e ainda não descobrimos mistérios elementares sobre o cosmos, a política ou as mulheres. E todos são fascinados e vacinados, mesmo que precisem de óculos 3D.

Abandone a sessão de cinema do shopping mais perto de sua casa e marque um encontro na primeira estação de metrô. Metrô? Não, não existe isso nessa Ilha. Há terminais de ônibus e food trucks espalhados ao longo da cidade. O trânsito se afoga sob a chuva, sob o contingente turístico e sobre si mesmo. São caminhos de tijolos amarelos que não terminam na Terra de Oz ou no País das Maravilhas. Nas filas de carros, a única diversão advém das ondas do rádio – pois as do mar demoram a chegar. Qualquer música, de valsas vienenses aos sertanejos pós-graduados, aumenta uma expectativa que será frustrada pela quantidade de coliformes fecais nas águas. Mas culpem os queijos quentes que tudo parecerá correto.

E agora, como impediremos o danado do progresso fora de propósito? Com foice e martelo ou postando vídeos da internet? Somos todos imigrantes nesse planeta e ainda não conhecemos nossos vizinhos da pátria-mundo. Eu tenho um sonho, como o Martin L. K. antes de mim: toda a lama secará e os prêmios das loterias transformarão gananciosos em gentis doadores de sangue, suor e lágrimas. Talvez seja disso que Florianópolis esteja precisando: nada mais que surrealidades no dia a dia.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 28/01/2016.

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