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As expectativas tratam das pessoas que as têm. Nem mais, nem menos. O conteúdo, neste caso, é a forma. E passado o Carnaval, fazemos dessas perspectivas de opinião o eixo das atenções, principalmente na esfera das relações públicas, na qual existe uma série de códigos e posturas que precisam fazer sentido – pelo menos no conjunto das aparências.

Pós-Carnaval, vive-se da desconfiança dos dias vindouros. Uns desconfiam positivamente; outros guardam o dinheiro no colchão. Mas todos se relacionam como se tudo dependesse de decisões tomadas por terceiros. “Se ele fizer isso, será melhor” ou “Tomara que ela mude as coisas de uma vez por todas” são caminhos que alguém haverá de tomar, mas nunca quem sentencia tais assertivas. Às vezes, culpam o governo. Noutras, o povo. E de tanto falar em culpa, não assumem responsabilidades que lhes são de direito e de origem.

Os otimistas esperam sempre que os ânimos se compadeçam e tudo volte a ser como antes – ah, aqueles tempos nostálgicos quando o mundo era tão menos complicado. Já os pessimistas perdem suas tardes reclamando das notícias com alguma satisfação ao dizerem “nós bem que avisamos”. Entretanto, estes ou aqueles não estão imunes à própria inércia que lhes move, contraditoriamente, para o mesmo lugar.

Quando as engrenagens sociais não estão bem azeitadas, a máquina sucumbe à paixão por si mesma. Há os que chamam isso de status quo, mas é só tosquice mesmo. Catalogar os humanos não faz o menor sentido quando a natureza define situações que fogem ao controle de nossa espécie. Ou, por acaso, alguém pensa que os vírus, as bactérias e seus comparsas estão preocupados com pobres ou bilionários, com plebeus ou consanguíneos da família real, com religiosos ou ateus…? Um corpo é só um corpo, até que se prove o contrário. Carne e água e ossos e mais umas outras coisas unidas ao pensamento. Mas a dengue ou a aids ou a zika não escolhem seus portadores dependendo do grau de instrução e tampouco estão interessadas se estes são analfabetos ou formados numa universidade pública. As desigualdades de uma sociedade só servem de desculpa para evitar o inevitável: uma expectativa que nunca se cumprirá.

Tanto faz estabelecer o Carnaval para marcar um recomeço. A vida não cabe num calendário, tanto como as expectativas não significam nada para quem escolhe não tomar partido. A decisão dos outros é proporcional à indecisão de si mesmo. A ressaca (ou a falta desta) é sempre mais significativa e perene do que a festa, independente da fantasia.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 11/02/2016.

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