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Na praia, ela caminha sensata. Como se o mundo lhe pertencesse. Ela sorri e brinca quando bem entende, porque o mar é seu fiel companheiro desde quando ainda era criança. Hoje, o mar cresceu. Mas continuam amigos. Ela se satisfaz com um banho salgado e demorado. Algas e agruras se dissipam no mar; e nem é preciso saber navegá-lo.

Ela é uma louca ao se ver suando sob um sol de rachar – mas um deleite não é para sempre. Por isso, à sombra. Na areia, ela limpa os lábios com água fresca, e passa a língua gentilmente qual prazer de outros momentos ainda mais intensos. Mata a sede com a ousadia típica das grandes mulheres. Ela deixará muito mais que pegadas na areia; ainda não é hora de ir. Passou do meio-dia tão agora que o tempo parece se repetir.

Há um clima para ser feliz e ela reconhece seus direitos impressos na pele: tatuagem ou marca de biquíni? A praia é seu lugar de origem. Sereia de duas metades humanas. Também é peixe quando lhe dá na telha. Por vezes, quer-se ave e admira as gentes do alto. Anja sedutora ou apenas exibicionista. Ninguém sabe nada da sua vida. E, por isso mesmo, ela encontrou a felicidade nesse condomínio natural de água salgada e raios ultravioletas. Mas não podemos nos esquecer da areia que dá a razão disso tudo se chamar praia.

Irrequieta, ela se vira sobre a canga colorida. Não se preocupem, porque apesar dessas variações corporais ela ainda está em paz. E nem poderia ser diferente. Olhem só tudo o que lhe foi oferecido desde sempre! Já havia tanta beleza quando ela pisou neste mundo pela primeira vez. Desta feita, só lhe coube ser verdadeira para com tudo aquilo que pudesse realizar em seus dias de sol.

Alguém passa ao seu lado e lhe diz alguma bobagem. Seus ouvidos, porém, só têm olhos para o mar. Mesmo com o céu aberto lhe banhando a pele, percebe-se numa concha para escutar o mar (como uma pérola faria noutra oportunidade). Imersa na própria expressão do verão, submerge em cada olhar desconfiado somente para desabrochar como uma estação ainda mais quente e inalcançável.

Será que alguém ainda duvida que ela seja, de fato, a dona da praia? Não importa. E ela não se importa. Envelhecer não lhe tirará esse prazer tão efêmero quanto eterno. O dia se cumpre na grandeza de uma estrela bem no centro de tudo. Quando anoitece, a mulher desaparece porque tem a necessidade de ser rara. Mas podemos dormir sossegados: amanhã ela retornará, fazendo da praia e do tempo uma única possibilidade de amar.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 25/02/2016.

cronicafalada

 

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