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As dúvidas também cumprem uma função social quando bem assentadas. Uma questão em aberto traz energia vital para uma relação amorosa ou, mesmo, para um governo em crise. Cada possibilidade se transforma numa chama que queima a fênix para nunca mais outra vez – como na livraria a seguir:

– Não sei qual livro escolher porque cada um se abre para um caminho próprio; revelou o inquieto comprador.
– Posso te ajudar apenas na comparação de preços, mas seria complicado intervir nas tuas intenções de leitura. Subjetividade é uma praia muito particular, sabe como é! Percebo o mundo somente com meus próprios olhos; reagiu a atendente.
– Eu também, mas tenho os óculos para me ajudar a encontrar essa beleza que procuro.

Ela sorriu meio sem jeito, desconfiada de que era algum tipo de flerte intelectual, mas não se sentiu ofendida porque já estava saturada dessas discussões de gênero.

– Talvez você possa reduzir as opções com a prioridade do autor.
– Como assim?
– Recorra às memórias afetivas de cada leitura e relacione-as com seus autores preferidos.

Depois, é só se aproximar do autor que mais lhe trouxe bons dias.

– Entendi. Mas tenho um problema ligeiramente maior em minhas mãos; ele comentou enquanto mostrava os exemplares que estava segurando.
– Qual problema?
– Jamais li quaisquer destes autores, mas fui bem recomendado por amigos. Veja este aqui: é um livro que trata dos desafios da política sob uma ótica romântica. Já este outro gira em torno de um relacionamento amoroso conturbado em tempos de crise social. São dois autores em sintonia com as minhas únicas preocupações atuais. É um dilema ampliado pelo meu orçamento diminuto. Ou faço isso ou meu barco afunda.
– No seu caso, navegar é preciso, mas investir em livros é ainda mais necessário; ela entrou no clima citando Fernando Pessoa.

Naquele momento, os livros ficaram mais leves. Sem nenhuma explicação, essa sociedade fragmentada da qual ambos faziam parte revelou um lado de prosa poética que nenhum dos dois acreditava existir. Ele queria convidá-la para sair, mas ficou em dúvida porque poderia ser mal compreendido.

– Eu queria te dizer uma coisa, mas estou meio envergonhado.
– Não se preocupe. Trabalho aqui há anos e já escutei praticamente de tudo. Diga.
– Sabe, eu estava com dúvidas antes de você chegar, mas agora tomei uma decisão. E, de alguma maneira, isso tem a ver com a sua presença aqui do meu lado.

Ele respirou fundo e falou tudo de uma só vez:

– Bem, eu já decidi o que fazer: vou levar o livro mais barato.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 17/03/2016.

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