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Quando a exploração humana em Marte teve início, sondas robóticas encontraram um planeta com pouco potencial, mas com um jeitinho todo especial. Os cientistas e demais interessados percebiam que aquele planeta traduzia a possibilidade dos primeiros passos em colônias fora da Terra. A Lua ficara para trás, avaliada apenas como uma bola rochosa gigante que influencia as marés e os cortes de cabelo.

Os primeiros humanos que pisaram no planeta vermelho jamais voltaram à Terra – não havia como, e eles sabiam disso. Mesmo assim, viveram bem em casulos artificiais que simulavam com muita propriedade as condições naturais terrestres. Tornaram o solo fértil e souberam como reaproveitar a água congelada encontrada no planeta. Eram pioneiros que tinham de lidar com a alta tecnologia dos equipamentos que permitiam a vida, mas também sabiam conviver com algum bucolismo de uma existência voltada à agricultura.

Por questões orçamentárias, no início foram enviadas não mais que uma dúzia de pessoas. Seis mulheres e seis homens de diversas nacionalidades com o objetivo de começar uma sociedade igualitária. Décadas mais tarde, os casulos ficaram muito maiores. O maior deles fora batizado como Supernova Iorque, por abrigar duas vezes a população da Grande Maçã original. Marte, agora, era um local atraente. O planeta inóspito de antes começara a dar sinais próprios de terraformação. A primeira árvore que brotou fora de um casulo foi notícia em dois mundos. O futuro promissor e a digna organização social deixaram a Terra em segundo plano. A moda agora era ter uma família marciana, como eram chamados os nascidos neste novo mundo sem índios.

Ninguém soube exatamente de quem ou de onde viera a primeira ordem legitimamente marciana: outro tipo de controle era preciso. Até então, todas as famílias ou indivíduos solteiros tinham de produzir sua própria comida e ajudar na manutenção do casulo. Isso não era visto como um ato obrigatório, mas sim um livre exercício de apego à sociedade. Desta vez, porém, este “outro tipo de controle” pegara-os de surpresa. Como ficariam os relacionamentos dali em diante? Qual a razão para questionar a harmonia vigente? Sem respostas concretas, foram à eleição assim mesmo. O administrador escolhido era um dos moradores mais antigos de Supernova Iorque, filho dos primeiros colonizadores. Ele aceitou a função com alguma relutância e prometeu mudanças. Anos depois, foi retirado do poder por suspeitas de corrupção.

Foi assim que começou o próximo erro humano.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 24/03/2016.

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