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– Não quero mais investir nessa relação.

– Por quê? No longo prazo, os juros compensam.

– Eu sei, eu sei. Mas juros e juras de amor são arriscados em tempos de crise.

– Mas foi você mesmo quem disse que a crise era política, e não econômica.

– Quando eu comentei isso, o país… o mundo era diferente. De lá para cá, o mercado está inquieto e meu coração não aguenta tantas flutuações nas taxas. Manter nossa relação seria como apostar numa região emergente sem perspectivas de retorno em curto prazo. Não sei se posso lidar com isso. Na minha última relação, saí totalmente arruinado, falido, magoado.

– E todas aquelas consultas que fizemos juntos? Passamos meses na terapia de casal justamente para ampliar nossos horizontes, expandir esse negócio que começamos do zero.

– Por falar em zero, este é o número que representa essas consultas. Não, não estou dizendo que a culpa disso é de você e nem reclamando da qualidade dos nossos terapeutas, mas é que eles… não falavam das minhas experiências e sim de possibilidades que já foram financiadas por outros. Veja o tal do Keynes e suas macro-análises: ele queria que nossas famílias agissem como o estado, intervindo diretamente nas nossas decisões. Assim, se tivéssemos de comprar um carro, seu pai teria de analisar a questão e servir de avalista; já se quiséssemos alugar um apartamento mais perto do centro, minha mãe deveria estar de acordo com a sua. E se um dia desejássemos um filho? Imagina!

– Imagino. Mesmo assim, Keynes não foi o único. Lembra do Smith?

– O Adam? Ah, esse não, por favor. Um liberal de primeira linha que mais parecia um pregador religioso fanático com aquela tal de “Teoria dos sentimentos morais”. Como se a consciência surgisse apenas das relações sociais. Não acho que uma “mão invisível” pudesse manipular nossa relação para torná-la feliz. Não se tratava de infelicidade, você sabe. Da nossa maneira, somos felizes e bem resolvidos, mas o problema é mais embaixo.

– E o Alemão? Ele não nos analisou de alto a baixo?

– O Alemão. Sim, uma figura. E aquela barba que não via um banho há meses! Sou obrigado a admitir que ele foi o único que entendeu nossa história. Quando ele explicou que nossos medos e angústias de um para com o outro fazem parte dessa eterna luta de classes que existe desde o início dos tempos, fui obrigado a lhe dar um voto de confiança. Ainda assim, não fiquei satisfeito. Além do mais, ele tentou passar a gente para o consultório do amigo dele… como era mesmo o nome? Engels? Acho que é isso. Não achei muito ético da parte dele.

– Vou ter que ir ao banco.

– Mas e a nossa relação?

– Depois que eu conferir o saldo, nós conversamos.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 07/04/2016.

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