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Sem papas na língua, Hamlet não chegou ao fundo do poço por dizer o que pensava, mas sim porque já havia percorrido o topo do mundo munido de sua ferramenta mais ilustre: o pensamento. Para o príncipe da Dinamarca o resto foi silêncio, mas para nós aqui do outro lado das páginas o resto estourou como uma bomba moral; e, mesmo sem o gás lacrimejante, as lágrimas escorreram na certeza de uma caminhada humana contraproducente.

A loucura de Hamlet, criada qual o melhor disfarce detetivesco, determina uma mudança no entendimento da realidade. Essa sensação de que algo lhe escapa e de que nem mesmo a fé, o amor, a arte, o progresso ou os sonhos trarão uma satisfação tão sublime quantos as possibilidades sugerem. Rosencrantz e Guildenstern poderiam ser bons amigos, mas o príncipe não busca esperança no outro – afinal, já é muita responsabilidade ter de lidar com a morte de Ofélia, única pessoa em sua história recente por quem teve algum apreço e empatia. A dor dela, para o bem e para o mal, é a mesma daqueles para os quais os sentimentos importam contrários à razão.

Há alguma ingenuidade em acreditar que a vingança do fantasma (também chamado Hamlet e outrora pai do príncipe) se dá apenas por questões políticas ou por ciúme – afinal, seu irmão Cláudio usurpou-lhe o trono e sua mulher Gertrudes num ato vil de regicídio. Oras, o Fantasma, avistado inicialmente por simples guardas quais Marcelo e Bernardo, é o chamado nebuloso pelo qual alguém pode esperar uma vida inteira sem ter por onde. Quis o destino (ou Shakespeare, vá lá) tornar a aparição também visível aos olhos do gentil Horácio, a quem restou a difícil tarefa de relatar o estranho acontecimento ao legítimo herdeiro do trono. Vai daí que a conversa entre Hamlet e o fantasma seja também um ponto sem retorno, no qual as glórias serão deixadas de lado porque a consciência lhe será o único reinado – a digna nobreza que não tem a ver com castelos ou soberania alheia.

“Ser ou não ser” sugere fim e início. Se há história, sempre haverá drama – e quais de nós estarão livres no desfecho disso tudo? Hamlet, de alguma maneira trágica, descobre a liberdade na ponta de uma espada envenenada porque também não era redenção o que lhe apetecia. Sua partida serena ainda lhe permite profetizar questões menores, políticas até, como a escolha de Fortimbrás que chega da Inglaterra com notícias das quais o príncipe nunca saberá. Se Hamlet seria um grande rei como o próprio Fortimbrás aponta? O resto é imaginação.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 14/04/2016.

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