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Naquela manhã de 21 de abril de 1985, as nuvens corriam como o vento, prenunciando uma tempestade necessária e passageira. Bem longe de Brasília, João tomava um café morno que sobrara do dia anterior, enquanto guardava metodicamente seu uniforme na mochila, companheira das longas jornadas de trabalho. Derramou um pouco de leite sobre a mesa e, no mesmo instante, lembrou-se do sonho que tivera na noite anterior: uma voz num alto-falante orientava uma avenida de trânsito intenso, dando coordenadas impossíveis e ordens sem sentido. Ainda no sonho, ele cruzava as vias sem medo; sequer olhava para os lados, abastecido apenas de uma intensa vontade de mudança. Pegou a toalha, secou o leite e saiu para cumprir sua rotina profissional.

Na porta de casa, a vizinha lhe acenou como quem diz “bom dia, apesar de tudo”. Ela parecia abatida, mas ainda forçou-lhe um sorriso que beirava uma serenidade meditativa. João retribuiu o gesto, e conversaram duas ou três palavras sobre o bairro, o clima e a política. “Sim, a política”, acabava de dizer para si mesmo que seu sonho era um posicionamento político. E tudo fez ainda mais sentido quando a vizinha lhe disse que “de nada adiantava chorar o leite derramado”. Foi como um soco no estômago – ainda vazio, porque ingerira nada além da xícara de café. Despediu-se colocando o chapéu na cabeça e seguiu rumo ao ponto de ônibus.

Passou pelas mesmas ruas usuais, e nada parecia mudado. Mesmo assim, trazia consigo aquela sensação idílica de que tudo estava diferente. Pela janela empoeirada da lotação, conseguia ler as pichações nos muros e tapumes contra o regime vigente. Pouco antes, a vizinha comentara sua apreensão quanto ao futuro do país. As frases gravadas com tinta e spray repetiam essa mesma ideia. Era preciso ter dúvidas para continuar em frente, pois uma calmaria é sempre seguida pela tempestade. No belo horizonte, as nuvens mais escuras quebravam um pouco a agradável percepção de humanidade. Mulheres, homens e crianças flutuando como pétalas desgarradas. João tomara para si essa beleza que se sente ainda mais forte com os olhos fechados e um longo suspiro.

Cumpriu suas horas no trabalho, limpando as ruas da cidade com a intensidade e o bom humor que lhe eram característicos. Entre um instante e outro, observava pela televisão uma agitação estranha. E o sonho lhe veio outra vez. Quando chegou em casa, havia um recado da vizinha colado à porta: “Amanhã, talvez”. Entrou e ligou a televisão: o jornalista Antônio Britto avisara: “Lamento informar que o excelentíssimo senhor presidente da república, Tancredo de Almeida Neves, faleceu esta noite no Instituto do Coração às dez horas e vinte e três minutos”. João percebeu na hora que aquele era o fim do sonho.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 21/04/2016.

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