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Se existem idiossincrasias suficientes na burguesia talvez seja porque sua origem está muito mais ligada à propensão de terceiros com posição superior do que ao processo naturalmente histórico – na medida em que a natureza e a história possam ter alguma coerência. A aurora do burguês irrompe feito um sintoma: a picada de um mosquito invisível, mas nem por isso menos palpável, chamado exploração. Tal nascimento tenderá à culpa ou à responsabilidade, dependendo do grau de tolerância de cada indivíduo, mas pouco importará no desenrolar dos fatos. O dilema que se eleva é muito mais humano e menos social.

Concomitante ao progresso burguês há um esvaziamento de vontades coletivas, como bem mostram os resultados das inúmeras revoluções, muito mais claramente após aquela que fez Maria Antonieta perder seus vestidos e sua cabeça. Desde então, a conquista no singular recebe apoio em massa, porque os dias devem ser aproveitados à exaustão. Não por acaso, as reformulações nos universos religioso e familiar se untam das possibilidades materialistas para construir uma oportuna ideia de sucesso. O deus do perdão definitivamente assume o lugar do deus da punição – mesmo para os extremistas, mantidos sob idêntica ordem e hierarquia. A carne ainda falará mais alto que as leis.

Com tantas possibilidades de liberdades aparentes, não parece nada contraditório que em muitos momentos – e ainda hoje – as nações encampem sentimentos tão pessoais quanto unilaterais para cercear o direito alheio. Os nacionalismos, as guerras e todas as decepções que lhes acompanham trazem consigo o peso do capital como única origem aceitável para o lucro disfarçado de triunfo. Qual a grama do vizinho que sempre está mais verde, governos e governantes olham com ganância para as reservas naturais de outrem, seja para retirar ouro negro ou branco. O equilíbrio só acontece com os vencedores no controle e os vencidos esmagados, que assimilam a cultura vitoriosa porque não querem ficar de fora dos dividendos.

E como fica o burguês no meio disso tudo? As intrigantes respostas são unificadas sob o mesmo manto histórico e historiográfico: de alguma maneira, o burguês se vê participando dos grandes enredos sociais porque ele próprio traz a pena e o papiro (ou o teclado e tela) que registrarão tais episódios. Mesmo que ele seja pouco gentil para com nomes de peso ou artífices dos grandes acontecimentos, em essência o burguês reproduzirá os velhos conceitos libertadores de longo prazo, assumindo para si as maiores ilusões que ficcionista alguma seria capaz de produzir.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 28/04/2016.

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