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A república acordou com uma nuvem carregada de gotículas tristes; o céu estava tão fechado que parecia sucumbir ante a própria truculência daqueles que o inundaram de rósea dor. Para o universo em si, continuavam as mesmas variações de sempre: bilhões de estrelas procurando seu lugar no espaço. Já no ambiente republicano, uma onda avassaladora moveu mares de gente para uma esperança inconclusa – malfadado porvir ainda vago.

Nas disputas internas, estava a arquitetura de um cala-boca… mas é melhor não tocar neste assunto. Vencedores e vencidos sentados à mesma mesa, discursando para uns poucos que assistiam vídeos divertidos nos aparelhos de telefonia móvel. Sinal dos tempos. Aquela casa política que teria de servir à maioria se transformou num ocaso de horas vadias e poltronas vazias. Pela própria demora de resultados, estes senhores do destino produzem crises institucionais. Republicanos de meia tigela que ainda furtam da tigela alheia.

E como ficamos sabendo disso tudo por meio de factóides intempestivos, a análise do lado de cá fica prejudicada ainda mais. Não obstante o pouco incentivo ao estudo mais elementar – aquela formação básica que distingue homens e mulheres dos outros animais –, ainda há a crítica obtusa de quem utiliza a república para refutá-la. Uns mais ousados e atrapalhados (sim, os idiotas), usam o nome da república para perder os próprios direitos em troca da glória reacionária. Em qualquer situação, o dinheiro está sempre por trás. Essa grana fácil invade territórios desconhecidos e deixa tudo como está. “O que seria da república sem esse capital?”, eles perguntam como se fizesse algum sentido.

Mesmo com o céu apontando tempestades, não parece equivocado acreditar nos pormenores mais legítimos da república. Afinal, noutros tempos não tão distantes assim, ela já fora colocada à prova, como para testar o nível de resiliência dos corações que não fogem à luta. E eles continuam a bater, apesar do teste parecer cruel e desnecessário. Parece. É.

Olhando com atenção, temos que o atual capitão é quem menos revela sobre sua embarcação. Ele não passa de um sinal de alerta, qual uma rachadura no navio. As nuvens carregadas trouxeram o mar agitado por companhia, mas os republicanos de fato e de direito não enjoam com estas ondas. Muitos anos atrás – séculos! – essa mesma terra ganhou um novo rumo com marujos de primeira viagem que deram o melhor de si na travessia. Essa viagem de inúmeros erros e pouquíssimos acertos ainda não terminou e a república não é o último porto. Remem, marujos! Remem!

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 12/05/2016.

cronicafalada

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