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Dois passos para lá, outros dois para cá. Assim eles tomaram o salão para si e não estavam nem aí para as dezenas de convidados. Num mundo imperfeito, a música não precisa fazer sentido. A oportunidade está ali, cadenciada, disponível para todas as pessoas que se entregam sem medo. Uma brincadeira, uma fuga, uma atenção especial com aqueles que se lhes aprazem.

Em algum momento, nem mesmo o salão seria preciso. O espaço de que necessitavam era mínimo; uma intersecção na troca de olhares. De quando em quando, as bochechas se chocavam numa explosão do acaso não acidental. Algumas palavras se perdiam, porque só importavam os passos e o ritmo.

Tom sobre tom, nota pós nota, a música condicionava-os a um estado catártico – talvez extemporâneo, certamente sentimental. E quem não se emocionaria com aquela cena tão típica de filmes jamais realizados? Os sapatos sobre o chão estalavam com o mesmo vigor de um choque estelar. Vibratos vibrantes davam um ar épico quase desnecessário quando aquele tempo não se sujeitaria ao metrônomo. Era uma vez outra história sem moral definida.

As mãos apertadas e suadas enlaçavam para além da pele. Ambos sentiram qualquer calafrio que não prejudicou o andamento do bailado. Um compensava a falta de ginga do outro; não eram simétricos e não buscavam igualdade tampouco. Sabiam-se mútuos, incompletos, atingíveis, transponíveis, irremediavelmente únicos.

Alguém com um olhar rancoroso ou entediado poderia torcer para um tropeção ou outro deslize rítmico qualquer. Deixem-nos com a sua incoerência. Nada menos digno que desejar a infelicidade, mesmo que numa trivialidade musical. A competência dos dançarinos não estava em pauta. Não havia júri para lhes dar nota e, mesmo que houvesse, seria solenemente ignorado. Que cada um cuide de sua vida e encontre sua própria melodia!

Ainda que o fôlego não fosse mais o mesmo da juventude, eles não titubearam um momento sequer. A união sacramentada no esforço da dança expiava muito além dos cinquenta anos de casados que completaram ali mesmo, numa cerimônia formal repleta de parentes, amigos e dois penetras que ninguém conhecia.

Eles sabiam que tudo tem um fim porque é somente o universo quem cuida da eternidade. Por isso, não se chatearam quando a música acabou. Deram o melhor de si para não perder o compasso ou a onda de felicidade provocada pelos estímulos sonoros. Muito mais do que um sorriso de satisfação, encontraram ao final da música a verdade incompreensível de uma última dança.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 19/05/2016.

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