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– Eu acredito ser importante que nossas discussões cheguem a um consenso, não importa o vencedor. O que me incomoda sobremaneira é essa sua aversão ao entendimento, sempre divagando sobre alternativas que nada mais fazem a não ser procrastinar nossos entraves.

– Eu juro que entendo os seus anseios, amor, mas não se trata de procrastinação ou coisa que o valha. Sou menos indeciso que cuidadoso, e zelo por uma tomada de consciência sempre a partir de soluções concretas. Não me interessa a divagação por si mesma. Deixo esse tipo de análise para os filósofos, os artistas ou, até mesmo, para os loucos. Eu sou cá um sujeito simples que não tem medo de perguntas ou respostas.

– Que seja! Mas tudo tem um limite. Esse teu jeito zeloso de ser, inevitavelmente, repercute na nossa qualidade de vida enquanto casal. Tenho comigo de que não precisamos lidar com dúvidas e dramas todos os dias de nossas vidas. É um peso muito grande que não faz o menor sentido carregarmos. O que me dizes?

– Tanto faz. Se é tão importante para você, vá lá e pegue o controle do aquecedor de ar. Honestamente, esse tempo frio não me incomoda.

– Adivinha!

– O que foi?

– Adivinha, oras!

– Nem sei por onde começar.

– Que tal o tempo?

– O tempo?

– É: o tempo. A temperatura, o clima. Comece por aí.

– Sei lá. Vai nevar?

– Não.

– Chover?

– Quanta criatividade, hein!

– Você quem está abusando. E olha que eu ainda estou me esforçando.

– Que seja! Já que você não adivinhou, eu revelo: ganhamos uma viagem para o nordeste. Um final de semana inteirinho com temperaturas beirando os 30 graus! Fomos sorteados com aquele cupom que você preencheu no shopping. Acabaram de me avisar.

– Mas…

– O quê?

– Achei que a gente estava se programando para ver neve! Este é o frio mais intenso dos últimos 100 anos. Talvez seja a grande chance. Pense só em quantas pessoas, quantas gerações passaram por aqui e não viram nada disso.

– A viagem só vale para esse final de semana. Não acredito que você quer trocar o quente pelo frio.

– E você quer trocar um momento histórico por um bronzeado!

– Então esse era seu final de semana inesquecível no nordeste?

– Como eu poderia saber que choveria por três dias seguidos, que o trânsito estaria um caos com a greve dos motoristas de ônibus e as ruas cheias de manifestações políticas? Ora, não me culpe.

– Não o farei. Mas eu bem falei que deveríamos ter analisado melhor as opções. Agora, estamos aqui com um ar condicionado quebrado, num quarto de hotel abafado e com saudades do nosso colchão ortopédico.

– Francamente! Quando nos casamos, não conhecia esse seu lado esquentadinho.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 16/06/2016.

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