Tags

, , , , ,


Mais uma vez, o tempo correu frouxo, com algum receio do que poderia acontecer no futuro. Ainda faltavam alguns minutos para que a Bolsa de Valores Mundial encerrasse suas operações, mas Carlos Prudente estava otimista. Sim. Fizera as trocas justas, apertara o cinto onde menos doía, calculara os fatores de risco e não se esquecera das frestas. Tudo no rumo, tudo no prumo. O castelo de cartas não cairia, mesmo naquela última aposta.

No outro lado da cidade, a facilitadora de informações, Anelize Rocha, antevia o futuro com seu dispositivo secreto. O pai, inventor que era, trabalhou naquele aparelho por anos. Juntou ultrapassados equipamentos de telefonia móvel e tablets de tela sensível (tão comuns naqueles distantes dias do início dos anos 2000), dando forma à primeira expressão do futuro projetada em tempo real. Morreu, todavia, antes de aprimorar sua genial invenção, e o dispositivo apelidado de TV Posterior visualizava apenas cinco minutos adiante. Mas Anelize conseguira resultados estupendos, mesmo com tão pouco tempo de margem. Impedira alguns graves acidentes entre carros-planadores, evitara um desastre ecológico na Cidade Redoma e, claro, se beneficiara com uma brilhante carreira de facilitadora de informações, uma das atividades mais relevantes da Pós-Era.

Anelize estava para guardar a TV Posterior em sua bolsa, quando viu a projeção de Carlos Prudente na Bolsa de Valores. Ele estava autorizando uma grande compra de ações, aparentemente comum. Mas, então, o dispositivo demonstrou a sucessão de eventos que levariam à bancarrota toda a economia do planeta. Na Pós-Era, o desenvolvimento econômico havia acabado com as fronteiras entre pessoas físicas, pessoas jurídicas e o próprio estado. As relações financeiras eram sem pudores, abertas, auto-determinadas por uma complicada engenharia social desenvolvida por especialistas liberais pouco antes do final do século XXI. Hoje, porém, o sistema iria ruir. Mais precisamente em cinco minutos, todo o progresso alcançado no último século findaria pelas mãos de um sujeito chamado Prudente. Carlos Prudente.

Anelize disse para si mesma: “Como poderei avisar Carlos, se as comunicações exteriores são proibidas na Bolsa de Valores?”. Ela estava praticamente no extremo oposto da Cidade Redoma, não haveria tempo para chegar lá, mesmo com as vias aéreas totalmente liberadas. Decidiu arriscar. Passou uma falsa informação de ataque virtual na Bolsa. “Se Carlos estiver com o aparelho de mídia expansiva ligado, ele não apostará nas ações”, pensou Rocha. Mas Prudente não viu. E foi o fim do liberalismo da Pós-Era exibido na TV Posterior.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 07/07/2016.

cronicafalada

Anúncios