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Talvez tenha sido aquela chama olímpica ou talvez seja por causa de um sentimento oblíquo que ansiava por lhes causar efeito. Eles não sabiam ao certo, e nem mesmo se davam ao trabalho de buscar uma explicação mais intelectualizada. A sensação era, acima de tudo, corpórea.

Os jogos olímpicos recém iniciados. Ele, um atleta das provas de natação; Ela, uma ginasta especialista nas barras assimétricas. Durante a noite, a Vila Olímpica trazia oportunidades indiscutíveis. Deixemos o bom senso de lado, diziam os competidores mais atirados. Provas de tiro ao alvo ou equivalentes também nas relações pessoais, íntimas, intimistas. Eles e elas. Eles e eles. Elas e elas. Às vezes muitos, outras vezes solitários. Encontros fortuitos e olímpicos para vencedores e vencidos. Perdedores? Jamais.

Após a prova de natação, ele secou o corpo, guardou seus pertences e foi ter consigo mesmo próximo à pira olímpica menor que ficara distante do palco principal. Estava classificado para as disputas do dia seguinte e queria curtir sozinho o momento.

Tão logo sua equipe terminou o último giro de aparelhos, a ginasta vestiu um agasalho e se despediu de suas colegas, amigas e parceiras de prova. Intuitivamente, desejou ver de perto a outra pira olímpica (aquela menor), pois a rotina da competição pouco permitia esses momentos típicos dos turistas.

Nadador e ginasta completavam uma volta de 360º ao redor da pira quando deram um com o outro. Identificaram-se como competidores olímpicos ao notarem os arcos coloridos entrelaçados e estampados nos uniformes alheios. Foi como a saída das barras assimétricas cravando nas águas de uma piscina: um movimento impossível até aquele momento. Possível, a partir de então. Os corpos fizeram o que sabiam fazer. Treinaram muito para isso. Eram atletas, afinal!

No dia seguinte, a competição pareceu muito menos difícil. Um sorriso em cada rosto – em muitos rostos espalhados pela Olimpíada. Afinal, não há esporte que não exija corpo e mente em perfeita simetria – diferente das barras nas quais a ginasta era tão hábil. O nadador conseguiu um bom tempo. Outra etapa vencida e a classificação para a disputa final, quando brigaria por uma medalha. Se a prova era de 100 metros livres ou de 200 metros medley, isso pouco vem ao caso. Ela assistiu a prova dele e até lhe trouxe uma bandeira de seu país como presente – ambos competiam por nações de continentes distintos.

Alguns encontros fortuitos depois e já não pensavam mais em ouro, em pódio ou em glória. Queriam mesmo celebrar os corpos. E foram grandes campeões. Ah, se foram.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 11/08/2016.

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