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A justiça é um conceito complicado, principalmente porque sua aplicação é cheia de pormenores e dividendos que podem ou não ser desconstruídos a partir de um referencial lógico. Se empregarmos a justiça aos esportes, por exemplo, então obteremos uma espantosa contradição de um sistema imperfeito, que não premia a constância e tampouco dá bola para a qualidade. Mesmo os recordes, por vezes, nada dizem do que foi uma disputa em si. Tudo só faz sentido quando encontramos aqueles ícones acima de quaisquer suspeitas – pelo menos, quando se trata do ambiente desportivo. Quando nos deparamos com campeões soberanos, quais foram Pelé, Nadia Comăneci, Muhammad Ali, Serena Williams, Usain Bolt, Hortência, damos com o extraordinário – e ficamos espantados com nossa própria humanidade. Um ídolo tem sua razão de ser na simplicidade mágica de sua genialidade. São as exceções das regras, claro.

Nestes Jogos Olímpicos do Rio, encontramos esses dramas injustos que nos comovem porque o esporte é igualmente feito com suor e lágrimas – nalguns casos mais extremos, com sangue também. As histórias de guerreiros e guerreiras que perdem por um deslize mínimo, como uma queda num aparelho de ginástica, ou pela superioridade de rivais com um treinamento muito mais eficaz e de longo prazo, como nos gols sofridos em jogo de handebol, deixam um gosto amargo de quem merecia ir mais longe. Mas o mérito é tão ou mais infundado quanto a justiça nestas questões esportivas. Por isso, também, as proezas de desconhecidos nos surpreendem. O atleta de quem nunca ouvimos falar acaba por ganhar a medalha de ouro e se torna visível. Sua ascensão é quase um ato de fé, porque os descrentes passam a ver uma luz no fim do túnel. Seria uma tocha ou apenas o refletor do ginásio poliesportivo? A coerência é deixada de lado, e os heróis de hoje poderão ser os vilões de amanhã se os resultados não aparecerem – ou vice-versa. O mundo é injusto, dizem.

Como acontece com as fases da vida, uma competição passa e se torna memória, registro, história, fato e versão. Conquistas vêm e vão na mesma velocidade em que os jovens migram de um namoro para o outro. E os episódios gloriosos se transformam em um sonho bom que tivemos a oportunidade de compartilhar, seja assistindo tudo pela televisão ou apenas trocando ideias vencedoras ou derrotistas numa conversa descompromissada dentro de um bar. À justiça, cabe um papel ingrato de mediar fatos que não condizem com a razão. O esporte tem mais a ver com as artes e, de tal modo, com o intuitivo e o inexplicável. A falta de medalhas só nos fará ainda maiores. E me parece justo que seja assim.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 18/08/2016.

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