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Ficou sem ler por um longo tempo. E vivia perdendo as disputas de jokenpô. Naquela tarde, em especial, foi como se tivesse recebido um murro! Estava até mesmo mais desconfiado que o Dom Casmurro. Sabia que, em breve, algo extraordinário aconteceria. Nada tão drástico como a morte ou um encontro na sorveteria. Apenas a vida; aquela mesma de sempre a lhe arrancar (da América) – ou seria uma intervenção literária de Iracema, como queria José de Alencar? Seja como for, ficou no continente. E suspirou num alívio contente. Detestava longas travessias, mesmo acompanhado do Messias. E nem era tempo de cruzar o deserto. Com o imponderável, o melhor é ficar por perto.

Quando chegou em casa, deu com uma verdade impossível: um amigo de outros tempos carregando um fardo invisível.

– Morto: Assim foi que lhe descreveram-me da última vez!

– Eu sei. Mas fingi a má sorte como numa jogada de xadrez.

O amigo escapara da guerra, e voltara com uma medalha no peito. Afinal, quem não se encerra numa batalha só faz aumentar o respeito. Escapara do campo inimigo fingindo-se sem vida. Mas que drama humano e que história bem resolvida! Agora, estava à porta. Plantado, como uma horta. Esperava ser bem vindo e não tamanho espanto. Outrora, a informação errada já causara desnecessário pranto.

– Entre, entre. Desculpe-me os modos. Venha e não fique aí fora à toa.

– Trouxe-lhe de presente uma edição autografada de Fernando Pessoa

O bom amigo se lembrara de quanto ambos apreciavam a poesia. Antes de deixar o Velho Mundo, foi a um sebo e encontrou o queria. Um presente raro e inesperado, qual a visita de um amigo reencontrado.

As boas novas não paravam por aí, prestem atenção. O amigo lhe contou que recebera uma pomposa herança, quase uma benção. O velho tio deixara algum ouro guardado e também uma antiga livraria. Estava procurando um parceiro para tocar o empreendimento chamado Shakespeare & Cia.

– Poxa, que notícia! Mas faz tanto tempo que não leio!

– Logo você, que não trocava o livro pela bola no recreio!

– Mesmo assim, caso a proposta seja verdadeira, aceito.

– Não iremos nos arrepender, eu garanto. Será perfeito.

E assim, os velhos amigos de outrora iniciaram aquela que seria a mais espetacular livraria de toda a história humana. Não haveria concorrente à altura, porque não visavam o simples lucro, mas sim o calor que dos livros emana.

Na porta da livraria, há um aviso entalhado na madeira: “Aqui vendemos sonhos a qualquer um que queira”.

Eu acabei de sair de lá, e ainda estou com o exemplar na mão. Mas o título deste livro eu não digo não.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 25/08/2016.

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