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Mergulhados na dor e no ressentimento, aquele casal que hoje nos comove para fins crônicos acreditou que o amor não acabaria jamais. Mas o amor é feito de existência, de opções culturais, de sentimentos que preenchem as lacunas do que somos e do que ansiamos ser. Para além da matéria que compõe os sonhos, o casal (os casais, todos eles) fora urdido também nas agruras dos pesadelos, em devaneios calcados na dura realidade: no fim, a morte, o silêncio, a ausência.

Se eles acreditavam em deus, faziam muito bem. Se não acreditavam, também. Há espaço para ser e não-ser, para a dúvida e a questão última que nos corrói a alma desde quando deixamos os brinquedos de lado e começamos a nos preocupar com a distribuição de renda. Mesmo assim, eles todos teimamos em nos relacionarmos. Enquanto uns se descobrem, outros são apresentados; no fim, tudo é acaso. Para efeito de comparação, a própria vida é o epicentro desta casualidade; e amor ocupa seu cantinho à esquerda de quem quer impressionar o outro. E as primeiras impressões daquele casal – que hoje lamenta a sorte perdida – foram das mais impressionantes. Alguém poderia até mesmo falar em “amor à primeira vista”, mas parece ter sido algo muito mais agudo. Evidentemente, em casos assim não há espaço para aquela polidez cínica de uma personagem de Jane Austen, porque estamos falando da precisão do cupido. Uma flecha certeira untada com o caldo da fruta do pecado original. Que pontaria, pessoal!

Nesses episódios de paixão fulgurante, sempre há espaço para as ações redentoras. E, mesmo completando um ao outro sem deixar margem para a solidão alheia, sentiram na pele aquela epifania de que era possível fazer ainda mais. Cumpriram, ao menos assim pensavam, suas obrigações para com a criação – independentemente do nome que lhe davam. Foi quando tiveram um filho que os eventos receberam o desfecho de que falávamos lá no primeiro parágrafo. A criança não teve culpa alguma pela crise a qual passavam. Mas aquele legado de miséria humana de que falara Machado de Assis bateu forte no peito, bem ali no lado esquerdo e os feriu, mesmo que não aparecesse no eletrocardiograma.

Os papéis do divórcio chegaram ao final da tarde, bem na hora em que o bebê chorava de fome.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 06/10/2016.

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