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A queda de um copo de vidro desperta a criança dormindo numa das cadeiras do restaurante. É hora da refeição. Para uns, um mais que saboroso buffet de carnes. Para a criança, o mais que necessário leite materno. Na amamentação, a vida e as possibilidades infinitas de quem ainda vai descobrir que essa experiência é única. Quando crescer, talvez a criança guarde-se em sua própria estrutura sentimental e se torne uma existencialista, daquelas que tem carteirinha de clube do Sartre e tudo. Mas não a fará mais ou menos feliz tal destino. Porque o conhecimento há de lhe abrir algumas portas, mas o contato físico, pessoal, afetivo intuirá outras janelas pelas quais será defenestrada, ainda que metaforicamente, do seu ambiente de convicções.

A criança mama com os olhos abertos, perscrutando quem lhe rodeia com sua imaginação em ebulição. Mesmo sem ter aprendido a falar, ela conta para si mesma que está segura no colo da mãe. De tempos em tempos, o pai lhe dá uma espiada e faz alguma careta engraçada. Essa coisa louca, antiga, moderna chamada família lhe traz algum sentido enquanto todo o mundo ainda não foi explorado. Talvez ela se torne uma exploradora. Do tipo que olha para baixo, como os arqueólogos? Ou do tipo que levanta a cabeça em direção às estrelas, como os astrônomos? Teremos que esperar para ver. De algum modo, sua preocupação é menos conceitual e mais urgente, quase efêmera, mas super relevante.

A refeição dos adultos ainda está longe de acabar, mas a da criança parece estar chegando ao fim. Ela fecha os olhos, não se importando com a acirrada e alegre conversa de seus pais e dos amigos deles. É bom tirar um cochilo para manter a juventude em dia. Em alguns anos, ela também descobrirá os amigos. No início, não importarão gostos pessoais, opiniões políticas ou questões do gênero. Haverá somente a brincadeira, o lazer, a diversão de quem teve uma oportunidade dourada numa sociedade cheia de tons acinzentados. Nas amizades que ganhará ou perderá pelo caminho, verá que não foi simples assim para todos. E aprenderá com os erros da imaturidade e o conformismo da sabedoria. Mudará.

Assim que terminou de mamar, pegou no sono outra vez, enquanto a mãe registrou aquele tenro momento com o celular, postando a imagem da criança numa rede social. E todo mundo curtiu.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 27/10/2016.

cronicafalada

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