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A crítica, companheira indissociável da opinião, ganhou a graça das pessoas nestes tempos virtuais. O mundo líquido, de relações sinuosas e, paradoxalmente, desconectadas, permite-se aos contratempos de quem precisa ser ouvido, compreendido, aceito – e jamais repreendido. Mas o exercício da crítica, sobretudo quando se pretende assaz e relevante, vai muito além da opinião constante, permanente e urgente sobre tudo. Nenhuma tecnologia ou ferramenta que facilite a divulgação de pontos de vistas, convergentes ou antagônicos, substituirá a necessidade de conhecimento. Ter alguma sabedoria exige esforço, tempo e dedicação, mas vale a pena porque tende a suprimir todas aquelas idiossincrasias das primeiras impressões.

Desde sempre, tudo tem a ver com informação e formação. Essa educação obtida sob a égide da coerência escapa um pouco aos conceitos tradicionais, ainda que seja respaldada pela família, pela academia e pelas instituições que impõem certos limites, mas permitem que o pensamento circule com as rédeas soltas. A viagem da mente será sempre aquela mais próxima da verdade absoluta porque admite que erros e acertos são tão irreais quanto quaisquer outras coisas. Entrementes, nossa vantagem evolutiva fez brotar uma experiência a mais nos corações humanos: o discernimento. Ele pode andar ligeiramente esquecido nestes dias de ideias tão polarizadas, mas ainda existe para mostrar a fragilidade tanto de quem é oito quanto de quem é oitenta.

Não raro, damos com a incapacidade do diálogo quando linhas contraditórias atravessam a mesma encruzilhada. Acontece de forma mais explícita quando das manifestações político-partidárias, mas também se dá com todo o resto. Além da falta de conhecimento das questões mais pertinentes ao tema, foge-se quase de forma inconsciente de uma amiga ilustre chamada ponderação. E é aqui onde os pensamentos se encontram, porque longe dos ponderados ficam aqueles tristes e ressentidos: figuras mal amparadas pelo recalque do que nunca puderam ser. Pense bem: jamais você verá alguém acusando outra pessoa de ponderada, como se fosse um xingamento. O motivo é simples: a ponderação é o fim da estrada; não se pode ir além dela. É o local mais alto de corações tão leves que flutuam, porque até mesmo a gravidade não tem força lá.

> Crônica publicada no Jornal Notícias do Dia em 03/11/2016.

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