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Num sentido mais estrito e histórico do que prático e cultural, a eleição de Donald Trump diz mais sobre as nossas expectativas do que sobre nossas necessidades. Temos, evidentemente, sempre medo de falhar. É o que nos torna humanos. É o que nos faz tomar decisões arriscadas, apenas para fugir de uma inevitabilidade histórica: as mudanças estão aí para nos iludir, fazendo-nos acreditar nessa ideia de progresso. A continuidade é menos conservadora do que a mudança porque ela não mexe com os desejos individuais. E vivemos a Era dos Desejos. Todos querem tudo; e agora. O cotidiano se tornou um ambiente inóspito por si só, principalmente quando se perdem as expectativas de mudanças: mudar de classe, de roupa, de refeição, de tudo que é físico e revela quem queremos parecer.

Justamente por ser um mega-bilionário, Trump se parece mais com a ideia de sucesso do que nosso vizinho feliz. Já não interessa mais a grama verde e retilínea da casa ao lado, quando o que se almeja é não ser o que se é. Talvez este seja o drama de sempre da classe média. Com medo de perder o que tem, vive em angústia num suporte quase cego àqueles que têm demais. E se as oportunidades mínguam, como é próprio do capitalismo de tempos em tempos, o vale tudo ganha sua vez. É quando surgem os preconceitos, a polarização do debate, o ódio que enxerga apenas a si mesmo e nunca além.

Participando ou não das eleições, o cidadão comum olha para seus políticos qual o reflexo de um espelho. E o desafio do candidato é agradar seus eleitores até nas declarações mais pessoais que não dizem respeito ao trato da coisa pública. Na prática, a política é tão distante quanto esse reduzido universo dos bilionários quais Trump e Cia: Gente que perdeu muito dinheiro ao longo dos anos, decretando falências consecutivas, mantendo-se no topo assim mesmo porque cumpria os requisitos desse sistema invisível a quem todos culpam. Reparem que a culpa sempre está no outro, nunca em si mesmo. É o outro que não sabe escolher seus líderes. Mas a piada pronta continua ali: o Outro fala o mesmo de ti. Muitas vezes, utilizando dos mesmos argumentos, da mesma adjetivação barata e rasa. O espelho, de novo. E nunca é fácil olhar para si mesmo. Ainda mais quando a imagem que aparece é a de Donald Trump.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 10/11/2016.

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