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Ultimamente, tenho desconfiado bastante dos ídolos. Não por questões morais dos indivíduos em si, mas por entender que a fragilidade se esconde até no mais valente dos heróis. Por outro lado, talvez a desconfiança de fato deva pairar naqueles que confiam desesperadamente em seus ídolos. Em última instância, ninguém nos salvará – salvo nós mesmos. Mas essa desconfiança não é um sentimento impulsivo e impensado. Ao contrário, penso que seja resultado de muitas decepções. Afinal, falsos profetas existem desde sempre.

Ainda assim, ter um ídolo ou vários não é necessariamente um problema, tampouco uma questão ética ou moral. A inspiração, por exemplo, é um fruto quase sempre positivo do legado dos ídolos. Reproduzimos suas falas, refazemos seus gestos e encontramos assim a satisfação de um bem maior que nos acostumamos a chamar de exemplo. E também somos exemplos para alguém. Sempre. No trabalho, na família, na escola: muitos olham para nós buscando alguma nuance que lhes possa trazer algo, mesmo que de modo inconsciente. Até nossos rivais nos ensinam a fazer diferente. O exemplo é a forma mais antiga de aprender.

Entrementes, aprendemos com os ídolos lhes dando uma relevância muitas vezes demasiada. Mas tudo bem. Não temos réguas ou equivalentes para medir o entusiasmo e a fascinação. Além do mais, quando somos encantados por algo ou alguém, deixamos a razão de lado porque sem ela tudo fica mais divertido. E merecemos curtir um pouco todas as possibilidades – com prudência, claro. Exagerar é bom, mas tem seu preço. E os ídolos de multidões estão cansados de saber disso.

Escrevi sobre ídolos para chegar, enfim, naqueles que se foram. A tragédia do voo 2933 que tirou a vida de mais de 70 pessoas levou consigo muitos ídolos no dia 28/11/2016. E não foram apenas aqueles do esporte, ligados à delegação da Chapecoense ou dos veículos de imprensa que iriam cobrir a partida do time pela Copa Sul-Americana. Estes, principalmente os jogadores, eram ídolos de milhares e se tornaram lendas para milhões. Mas como todas as vidas são essencialmente iguais, todas as mortes representam as partidas de ídolos – para um pai, um filho, um amigo, um amor…

Desconfio dos ídolos, mas não lhes tiro a importância que tiveram em vida. E se todos podem ser ídolos, desconfio que todos abraçarão a eternidade.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 01/12/2016.

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