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O interesse dele era por todas as coisas. Acredite-me quando repito: ele realmente sentia uma curiosidade tão absoluta que, às vezes, parecia quase explodir. Felizmente, claro, nunca lhe aconteceu nada demais. Houve aquele acidente de barco tão logo completou 18 anos, mas ficou por aí. De resto, manteve-se saudável para contemplar o mundo como nunca antes.

No mar, no céu e na terra, encontrava motivos para sua aventura do descobrimento. E talvez ele fosse mesmo um descobridor à maneira clássica. Pouco importava se toda a superfície do globo já estava mapeada: para ele, a novidade era como a surpresa de um encontro para lá de esperado. E, se bem me lembro, a vida lhe deu muitas oportunidades para que seus planos fossem exitosos.

Como marinheiro, conheceu mares e portos em todos os continentes. Em cada país, um reencontro com o seu eu mais profundo. Via o reflexo de si mesmo ainda que estivesse ligeiramente diferente. Os olhos puxados dos orientais eram os seus; a pele escura dos africanos era a sua; os cabelos cor de fogo dos nórdicos também eram os seus. As viagens lhe proporcionaram uma identidade única, mista, completa e radical. Foi um exercício de humanidade que ultrapassou as fronteiras antropológicas, históricas e sociais. Ficou tocado e maravilhado por descobrir nos outros e em si mesmo os dilemas, anseios e qualidades de sempre, cada qual adaptado pela cultura e pelo ambiente.

Não que estivesse cansado do balanço do mar e nem de conhecer tanta gente interessante, mas decidiu que era hora de navegar em ondas menos literais e mais literárias. Ainda me recordo do momento em que ele anunciou para alguns amigos em comum seus novos rumos. Estávamos todos reunidos para uma festa de final de ano, quando ele se levantou da cadeira e ergueu sua taça de vinho. “Às letras, às letras”, gritou sobressaltado, como se aquilo fizesse sentido para outrem. Sorrimos todos, aceitando o brinde. Ele, por sua vez, mergulhou nas palavras.

Como o acesso à internet era limitado naquele tempo, tratou de ir trabalhar numa biblioteca, onde certamente cumpriu suas leituras de A a Z. Ali também descobriu o imponderável. Mas ainda não haveria de ser o bastante. Queria conhecer a plenitude do cosmos. Amanhã, começará o curso para ser astronauta.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 08/12/2016.

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