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Ocorreu num 25 de Dezembro. Ninguém lembra o ano exato, mas a fidelidade dos detalhes, dizem, é espantosa. Como se lá alguém estivesse com um gravador ligado. Então, a magia se fez:

– Com licença.

– À vontade.

– Desculpe o mau jeito com o carrinho de compras. É que está tudo muito cheio.

– Não tem problema, só me encostou de leve. E, além do mais, é Natal! O melhor dia para perdoar, não é mesmo?

– Indubitavelmente. E, afinal, acho que estamos no único mercado aberto em toda a cidade.

– Acho o mesmo. Passei por uns três ou quatro bairros procurando até que encontrei este aqui. Seu carrinho está bastante cheio. Família grande?

– Sim. Quer dizer, muitos tios, primas e sobrinhas. Eu, particularmente, ainda não tenho a minha.

– A sua?

– Família. Ainda não construí. Sabe, nunca casei, nem tive filhos. Mas quero.

– E quem não quer?

– Como é?

– Digo… acho que, no fundo, quase todo mundo quer. Também estou nesse time aí seu dos “sem família”. Quem sabe não montamos um clube…

– Notei que você está só com uma cestinha de compras.

– É. Somos apenas eu, meu pai e minha avó. Ela era imigrante e tanto eu quanto meu pai somos filhos únicos.

– Que bom. Quer dizer… que legal que também estão reunidos hoje. Pelo jeito, hoje teremos dois almoços bem familiares. Desculpe por ficar observando os produtos da sua cestinha, mas acabei de ver um vinho da mesma marca que eu escolhi.

– Santa Ceia? Na verdade, peguei por causa do nome, e por que o meu pai adora vinho seco. É uma marca boa?

– Uma das melhores. Seu pai vai saborear com certeza.

– Espero que sim. Sabe, não temos a tradição de dar presentes nessa época. E tem esse lance da crise… enfim, hoje vamos só compartilhar um dia que é especial justamente porque é igual a qualquer outro. Não nos tornamos melhores ou piores só porque é Natal. Eu não acredito nisso. Mas sei que as pessoas podem fazer o bem em qualquer tempo, em qualquer dia. E hoje é um deles.

– Concordo. E você já fez um grande bem hoje perdoando minha atuação desajeitada com o carrinho. Foi um prazer te conhecer… aliás, posso perguntar seu nome?

– Claro. Pode me chamar de Maria. E também foi um prazer te conhecer…

– José.

No Natal seguinte, José e Maria dividiam o mesmo carrinho. E o mercado continuava cheio.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 22/12/2016.

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