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Cada dia é uma nova oportunidade que encontro para me convencer daquilo que pode ser o sentido da vida. Vasculho, mexo, indago e perscruto ideias submetendo-as à lógica de quem só consegue ouvir bem com o coração. Entre uma batida e outra, num suspiro vívido e quase pontiagudo, deparo-me com a singeleza amiúde da saudade. Porque ali está a paz que procuro.

Parece uma obviedade sem tamanho, do tipo frívolo e cujo discurso feito está fartamente preenchendo os livros de autoajuda. Não é. Eu mesmo demorei um bocado para tê-la sob minha companhia, porque os desvios são muitos. E é comum se enganar. A saudade pode tender para um lado triste, pois remete a um tempo que não existe mais. Aí está o engano. O que passou continua a existir para todo o sempre; como uma cicatriz ou uma tatuagem que carregamos sem pesar.

Na correria do cotidiano, não prestamos atenção nas saudades que cultivamos o tempo todo. No meu caso, carrego saudade de três décadas de vida e mais uns anos soltos. Da minha infância nos anos 1980, quase não tenho memórias específicas, de fatos precisos e nítidos em forma de pensamentos. Ainda assim, trago comigo uma saudade imensa daquela década porque ali fui forjado. Com minha mãe, meu pai, meus irmãos, parentes e amigos, tomei as decisões que me trouxeram até aqui, assimilando as características que me eram possíveis. Descobri algumas verdades que me perseguem até hoje, e sou grato por elas.

Há sentido na saudade quando conseguimos nos afastar dos preconceitos aos quais fomos submetidos enquanto crescemos. Se você quer saber mesmo, a humanidade é ainda muito inexperiente sob uma dezena de aspectos. Mas também somos divinos quando descobrimos que fomos nós mesmos que criamos as dádivas. É da nossa natureza ser épico; faz parte da nossa aventura este reencontro com a saudade.

Dizem por aí que a saudade é uma palavra exclusiva da língua portuguesa, cujas raízes poderiam remeter à época das grandes navegações. Os lusitanos de outrora, distantes de sua terra natal, externaram a falta que sentiam dos seus por meio da saudade: palavra e sentimento unidos numa mesma pulsação. Mas a saudade está disponível para todos, em qualquer idioma. Basta apenas um coração que quer bater e fazer sentido.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 09/02/2017.

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