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As festas e os poderes públicos têm ligações antigas e remontam às primeiras civilizações. Quando surgem as cidades, nada mais clássico do que entreter essa galera cada vez mais reunida, que fazia das próprias paredes os muros divisórios. Gregos e romanos de um passado distante sabiam disso. Já com as tribos indígenas ou os nômades árabes, a coisa parecia ser menos grudenta, com cada um na sua oca ou tenda, mas as festas traziam todos para o mesmo espaço de convivência e, possivelmente, era ali que ficavam sabendo das fofocas dos vizinhos.

Com ou sem líderes, festejar parece estar no sangue da humanidade. Deem mais um tempinho para os biólogos e eles logo encontrarão um bloco carnavalesco unindo Adenina, Timina, Citosina e Guanina, os compostos orgânicos que formam o DNA. Se for em tempos de Carnaval, basta ligar o microscópio e lá veremos o quarteto de abadá florido, ansioso para pular atrás do trio elétrico. A genética sempre será nossa aliada para provarmos que ninguém sabe de nada e o que importa é mesmo curtir o baile.

Hoje, o clima está meio morno, como aquele café no escritório que ninguém bebe mais. Com essa crise aí (esta, em especial), gastar ou investir em festas ficou ruim para todo mundo. Até mesmo os governos, que sempre torraram dinheiro ou o deixaram escoar em desvios ilegais, encontraram desculpas razoáveis para cortar os recursos dos eventos públicos. Mas até o Carnaval?, perguntam os mais entusiasmados. O Carnaval não é um dos atrativos do país, movimentando o mercado interno, atraindo turistas estrangeiros e promovendo as qualidades da nação? Pode ser, ainda que tudo isso aconteça sem a infraestrutura adequada.

Neste momento, o mais pessimista questionaria a necessidade de investir recursos públicos nas festas, em especial no Carnaval, considerado pelos publicitários ufanistas como o maior espetáculo da Terra. Ainda que pertinente, a questão levantada por esse ser de pouca fé não faz qualquer sentido. Traços culturais não existem por causa do Estado, mas apesar dele. O próprio Carnaval é um símbolo disso, com suas origens pagãs que foram solenemente ignoradas quando a festa foi assimilada pela Igreja Católica.

Opa, lá está saindo o Bloco do Genoma! O último a chegar é a mulher do padre!

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 23/02/2017.

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