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Começou a escrever entorpecido de cansaço. Olhou ao redor procurando as horas mal dormidas e não encontrou nada além de ausência. Assuntos não lhe faltavam; era outra coisa que lhe incomodava. Sim, como manda a tradição conservadora, ele tinha a sua própria musa, única que lhe dava atenção quando ninguém mais o fazia. Inspiração também encontrava no próprio mistério da vida; era uma surpresa a cada dia, afinal. Ainda assim, o texto lhe escapava como um rato que descobre a mecânica de uma ratoeira. As palavras se fingiam de mortas nalgum canto qualquer do universo ou de sua mente. Mas o prazo… o prazo!

Não poderia furar de novo. Acontecera duas ou três vezes anteriormente. Uma delas foi puro esquecimento. Outra fora um mal entendido na troca de e-mails. E a última ocorrera por uma ressaca dos diabos – nada mais adequado, já que se dera justamente naquele período chamado inferno astral. Mas seu aniversário já passara há tempos e tudo que restara para si era uma folha em branco.

Escrever é como um duelo de faroeste. De um lado, o rosto concentrado, as mãos ansiosas para realizar seu trabalho, a respiração buscando um ritmo cadenciado. No sentido oposto, uma tela de computador intimidadora, ausente de conteúdo, mas cheia de si, cobrando-lhe a responsabilidade ao sussurrar “mas você quem decidiu ser escritor… não reclame”. Quem saca primeiro ganha a parada e, com sorte, uma história.

Por alguma razão desconhecida, lembrou-se de fragmentos do seu passado. Talvez estivesse buscando uma história pessoal que valesse a pena compartilhar. As desventuras na escola, as trapalhadas românticas da adolescência; momentos mais do que interessantes, mas que pareciam unicamente fazer sentido para si mesmo. Na ficção, o espaço para biografias é muito reduzido. Até mesmo uma crônica não pode carregar muito da vida pessoal autor com o risco de se tornar um autoelogio. O pintor sempre carrega nas tintas quando cobre a parede da própria casa. Por fim, o escritor deixou o passado na gaveta outra vez.

Estava para desistir de tudo. Bolou até uma resposta elaborada sobre uma nova enfermidade, quando veio aquela manjada ideia de falar sobre as dificuldades de escrever. E já tinha até mesmo a primeira frase: “Começou a escrever entorpecido de cansaço”.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 09/03/2017.

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