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Aí eles meio que se reencontraram sem ter nada para dizer um ao outro. Ele estava precisamente no meio da primeira palavra de uma pergunta quando ela o interrompeu dizendo…

– Sim!

Sim? Mas como assim? A mente dele se encheu de possibilidades, como se vivesse num tempo antigo e descobrisse que o mundo não era o centro do Universo. Tivesse à mão um lápis ou um teclado e um mouse, escreveria 172 páginas de boas intenções apenas para corroborar aquela exclamação. Tudo bem que o passado deles não era nada fora do comum, mas talvez fosse bem por aí que tudo faria sentido. As briguinhas e birras de cada um ganhavam novos significados revigorantes. No fim, era uma luta de amor; um confronto para ver quem gostava mais do outro. Lembrou com alguma fina ironia das incontáveis cenas de ciúme que promovera em público; ela, com o rosto vermelho, sem saber se deveria pedir desculpas aos demais presentes do ato ignóbil ou apenas ignorá-lo. Tudo isso era um passado que ficara sedimentado sob uma única palavra-bomba: Sim!

Sim. Ela estava ali mesmo. De verdade. Um de frente para o outro. E ele não conseguira sequer terminar a primeira palavra de uma pergunta da qual nem mesmo se recordava. O tempo parara, comprimindo o presente num átimo de amor. Após tanto tempo, eles se reencontraram justamente naquele lugar que sediara a grande revelação. Eles queriam tanto ter um filho juntos, mas ele não era capaz. Uma doença na juventude o privara de deixar qualquer legado da sua carne e de seu sangue. Talvez a dor tenha começado ali ou, quem sabe, tal situação serviu apenas de estopim para um relacionamento já debilitado pelas fracas atuações de seus protagonistas. Tinham muito vigor e pouco foco. E perderam de vez para a inércia. Mas não hoje; não agora.

Sim. Uma palavra muda tudo. Não era preciso de outra explicação. Os olhares cruzados se compreenderam naquele instante. O centro do Universo voltara a ser ali, pelo menos metaforicamente (deem-lhes um desconto). Eles ganharam uma nova chance do acaso e estavam dispostos a seguir em frente. E seguiram. Os corpos se chocaram suavemente. A música da discoteca como que desapareceu sensorialmente. E tudo o que sobrara ali fora carne, suor e um beijo longo e demorado.

– Sim.

Ele repetiu.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 06/04/2017.

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