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Disse, nas duas ou três vezes que me perguntaram, que literatura é tudo aquilo que está escrito. Claro, alguns dirão que tamanha isenção ou tão abrangente definição de pouco adianta para fins práticos. A estes, então, cabe toda a liberdade de escolha para pôr as coisas sob suas óticas particulares. Pois se não temos um acordo sob a ortografia que dirá sob uma forma de arte tão singular quanto a literatura?

Dito isto, podemos nos concentrar naquilo que nos apetece: as palavras. Pensamos por meio delas e, ainda assim, não lhes damos o devido valor. A etimologia mais profunda chegará num abismo infinito que atenderá pela dupla alcunha Necessidade-Criatividade. Penso que não existem raízes mais resistentes em quaisquer formas de arte ou comunicação. A Necessidade da palavra – que nasce sonora antes de ser escrita – supre uma condição inerente ao homem de ir além do mundo ao seu redor. Já a Criatividade que lhe acompanha é a explicação de si mesma; imaginamos sua origem a partir de nossa própria mente criativa; talvez seja Deus, talvez seja a ciência, talvez seja outra coisa – e este é um mistério para o qual, de certo modo, estamos preparados.

A palavra escrita e a literatura são entidades que tendem a flertar com uma ideia de imortalidade. Permitimo-nos imaginar um mundo sem nós quando deixamos versos, fatos e versões nalgumas páginas, quer sejam de papel ou não. Escrever é acreditar que o passado fará diferença no futuro. Em verdade, praticamente ninguém escreve para ser lido no mesmo instante. É até meio chato quando alguém fica sob o seu ombro conferindo cada nova letra que surge para complementar a anterior. Assim, o mais exibido dos autores ficará inibido porque a literatura nasceu para ser uma prática solitária, diferentemente do cinema, da música, da pintura…

Imortais ou não, continuamos a escrever. Eu aqui em 2017 e você que agora me lê no século XXII estaremos ligados até o final desta crônica, mesmo que nunca tenhamos nos esbarrado pelo tempo. De qualquer modo, a veia artística da literatura tem muito mais a ver em fazer perguntas do que entregar respostas insatisfatórias. A literatura é sobre ser. É ou não é?

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 11/05/2017.

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