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Após a leitura do título, um aviso essencial: qualquer pessoa pode contar uma história. Variam intenções e formatos, mas o drama humano é sempre o ponto de partida. Você pode falar de outras espécies vivas, deste ou de outro planeta, ou mesmo traçar uma narrativa sobre objetos inanimados. Não importa. O drama estará ali, em seu sentido verbal e não naquele popular que o assemelha ao desespero.

Qualquer história parte sempre da própria experiência. Um biógrafo jamais conseguiria escrever sobre alguém sem jogar em seu biografado suas próprias expectativas. Tanto faz gostar ou não dos personagens (reais ou fictícios), o autor escolherá o recorte que dirá um tanto de si e outro tanto do outro.

Sim, isso acontece com os cronistas também. Quando nosso texto fica enquadrado dentro do jornal, temos uma liberdade limitada pelo conhecimento que adquirimos e nada além disso. Ninguém pode escrever pelo outro – só assinar pelo outro, o que não passa de pura vigarice. Os mínimos fatos e argumentos que se transformam em crônicas vieram de muito longe para ganhar a forma final. Mesmo assim, depois de publicada, não raro o autor faria mais uma revisão, alterando uma palavrinha apenas, porque a perfeição nunca chega e temos de nos conformar.

Contar uma história pode transformar um momento trivial num momento único. Até os temas mais cotidianos, como a violência, a corrupção e o fim do namoro ganharão contornos singulares quando a inspiração do autor encontra o respaldo necessário no ato de criar. Rio encontra o mar; as águas oceanam-se. Uma crônica não é muito diferente disso, só que bem menos molhada.

Não acredito que existam receitas infalíveis, seja para bolos de chocolate ou para bolar uma história. Uns e outros dependem de muitas variáveis, incluindo, evidentemente, o receptor. Se saborosos ou não, bolos ou histórias fogem ao controle de quem os criou. Ainda assim, acredito que há sempre possibilidades de ser bem recompensado, mesmo que a satisfação esteja na obra em si.

O show não pode parar assim como a história tende a continuar. O próximo a contar mais sobre o drama humano pode fazê-lo com a certeza de que terá de nós alguma compaixão – afinal, padecemos do mesmo bem.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 25/05/2017.

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