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Falam por aí que a vida é uma caixinha de bombons porque nunca sabemos o que encontraremos em seu interior. No caso específico desta expressão, a vida é um sinônimo para humanidade, quase como um olhar de surpresa para si mesma. Como no castelo de A Bela e a Fera, quem se arrisca a descobrir seus segredos poderá levar um baita susto de imediato – depois, com algum quinhão de sorte, talvez até role uma dança no salão de festas. As grandes histórias são aquelas que colocam tudo em perspectiva, afundando-nos em nossa miséria e, igualmente, exaltando-nos qual o grande sentido de toda a criação. Os conflitos nos movem adiante. E os bombons deixam tudo ainda mais gostoso.

Anterior ao caso de amor envolvendo a Fera e a Bela, damos com outra caixa igualmente insuspeita. Pandora, a primeira mulher segundo a mitologia grega, recebeu como presente de casamento uma caixa contendo todos os males. Há muitas versões da trama, como convém a toda mitologia, por sinal. E nalguma atualização da narrativa, o autor desconvidaria o traiçoeiro que trouxe tão ordinário presente a uma festa de casamento. Por que não dar um forno micro-ondas ou um jogo de jantar? Mas justo uma caixa com todos os males? Oras, todos sabem que uma caixa é um convite à curiosidade. Qualquer comprador de depósitos abandonados do século XXI anseia por encontrar tesouros no mais simples caixote. Agora, imaginem o ardor de Pandora, uns bons tantos mil anos antes de Cristo, observando por horas a fio aquela caixa enigmática. Claro que ela não resistiu. Os otimistas ainda dirão: – Felizmente, a Esperança ainda ficou no fundo da Caixa de Pandora. Qual o quê! Justo a Esperança que é um sonho infinito. A Esperança, sob esse aspecto mítico, nunca se transforma. É algo do tipo vida e morte. A vida é estar; enquanto a morte já não é nada. Não se trata de discutir aqui sobre o além ou coisa que o valha, mas a simples constatação de que o não estar aqui não possui significado concreto: morte é ausência. Esperança é não-realização; por isso, não devemos esperar nada.

Na minha casa, guardo um baú. No baú, documentos de ontem e hoje. Vez por outra, retorno a eles, buscando surpresas mesmo naquilo que já sei de cor. Quando não encontro nada de novo, vou ao mercado e compro uma caixa de bombons que está em promoção.

> Crônica publicada no jornal Notícias do Dia em 06/07/2017.

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